A educação e a sustentabilidade do país

"Confrontei-me, há tempos, com os princípios orientadores da reforma da Administração Pública ocorrida no Canadá em 1993. O Programa Renew foi a resposta aos problemas que por essa altura o assolavam em termos de despesa pública. Nesse documento, perante as dificuldades do défice público, perguntava-se sobre o que se deve preservar, e não sobre o que cortar, tendo em conta o que seria importante para o futuro. Não pude deixar de pensar que a primeira coisa que seria referenciada como importante para o futuro seria a educação. No que a Portugal diz respeito, fiquei chocado com estatísticas que apontam para que, na faixa etária dos 25 aos 35 anos, a mais beneficiada nesta matéria, tão-só 58% dos portugueses tinham o ensino secundário, o que compara com mais de 80% na maioria dos países europeus. Começa aqui a perceber-se o porquê de um conjunto de problemas que nos assola.

Sendo certo que esta realidade é o resultado de 48 anos de obscurantismo, assustou-me o que uma política de cortes cegos nas prioridades de um país pode acarretar. E, sinceramente, não estou certo que, no que à educação diz respeito, estejamos a ter conta o princípio básico acima referido, de que o que se deve preservar é intocável, perante os efeitos nas gerações vindouras e no país como um todo. Se é verdade que temos vindo a melhorar a realidade da educação nas últimas décadas, também é verdade que temos vindo a cometer erros crassos. É inadmissível o quase desaparecimento do ensino técnico-profissional. E mais inadmissível do que o seu desaparecimento é a menoridade com que foi tratado. Menoridade essa transposta para o dia a dia na sociedade portuguesa, que, com o culto do Dr. e do Eng., enferma de um dos mais ridículos enquadramentos sociais existentes em sociedades desenvolvidas, como pretende ser a portuguesa.

Sejamos, pois, capazes de fazer a revolução cultural que o país precisa. Sejamos capazes de preservar o que será fundamental para o futuro. E sejamos capazes de acrescentar o que falta ao modelo educacional deste país. As gerações vindouras certamente que nos ficarão eternamente gratas."

José Alves, Presidente da PwC ao Expresso (02-11-13)