Aumento do peso das exportações é «notável» - Entrevista a António Brochado Correia

O auditor e gestor da PwC refere que os prémios Excellens Oeconomia querem destacar empresas e personalidades que possam ser emuladas e admiradas, sobretudo num contexto económico e social difícil que Portugal atravessa.

Os prémios Excellens Oeconomia para a melhor empresa e para a personalidade mais marcante de 2013 têm por objectivo destacar os casos exemplares. É essa a sua importância pois como refere António Correia, “muitas foram as pessoas e as empresas que ao longo da história do país, em momentos-chave das nossas vidas, tiveram impactos-chave na evolução positiva da história. Esse mérito, exemplo, influência positiva nas pessoas e na economia nacional, sendo reconhecido, divulgado, muitas vezes analisado e até estudado, faz com que a vida das pessoas globalmente melhore e o pais evolua. Esta é a importância deste prémio”.

Portugal atravessou uma das maiores crises económicas e financeiras dos últimos 50 anos. Temos hoje um melhor tecido empresarial? A crise não terá desfeito alguns projectos empresariais interessantes?

Seguramente a crise e a falta de financiamento terão adiado ou mesmo acabado com alguns sonhos e projectos empresariais interessantes, embora acredite que a resiliência e a tenacidade desses empreendedores possam voltar e o sonho volte a renascer e ser uma realidade. Quanto às empresas, todo o momento de crise e escassez de recursos leva-nos a uma reflexão de como fazer melhor, diferente, alterar pressupostos, tendo em vista melhores resultados. Os empresários portugueses revelaram uma capacidade imensa em descobrir novos caminhos nos ganhos de eficiência e nos roteiros internacionais, e isso é notável.

Quais são as principais características das empresas que melhor reagiram à crise?

Há muito tempo que gerem com disciplina e rigor, mesmo “austeridade”, na sua eficiência organizacional. Assumem o mundo como plano global de negócios e expansão das suas actividades, focalizando-se nas partes geográficas mais adequadas ao perfil do seu negócio e contam com o talento adequado a esta postura de gestão. Costumo dizer que qualquer bom governo nas empresas só pode ser tão bom como quem o põe em prática.

Quais foram os sectores industriais que reagiram melhor a esta crise?

Todos aqueles que se foram preparando melhor ao longo dos anos e, aquando da crise, o seu estágio de desenvolvimento e maturidade permitiu melhor absorver os impactos, bem como os que contam com maior vocação exportadora, urna vez que, apesar da crise, no mundo vários foram os países que continuaram a crescer e de forma significativa.

Que balanço da performance das nossas exportações?

Subir mais de 10 pontos percentuais no peso das exportações no nosso PIB é notável e é o caminho que temos de continuar a percorrer. Devemos ainda chegar a 50 ou 60% do PIB, fundamental para um país que tem um mercado interno relativamente pequeno e está muito aberto ao mundo. Um dos sectores que destacaria pela positiva nos últimos anos é o designado de indústrias tradicionais, como, por exemplo, o calçado, o têxtil, mas também os moldes e a cerâmica que têm feito percursos fantásticos de contributo para a economia nacional e para o emprego.

Como é que explica a resiliência de sectores tradicionais como os têxteis, o calçado e até a agro-indústria?

Nos têxteis e no calçado, porque hoje Portugal tem já uma marca que é reconhecida como sinónimo de qualidade, oque não era assim há 10 anos. No agro-industrial, porque Portugal tem condições na Europa únicas para o crescimento deste sector na nossa fileira industrial, mas a área utilizada para este fim era ainda muito pouca em face da disponível, pelo que há neste sector margem para crescimentos elevados, porque temos área, condições geográficas e muitos jovens empresários com vontade de entrar neste sector.

Portugal precisa de investimento directo estrangeiro. O que é que se deve fazer para se tornar um país atractivo?

Deve, em primeiro lugar, fazer uma boa promoção além-fronteiras das nossas qualidades para essa captação, que são boas, mas nem sempre bem percepcionadas por quem pretende investir. Neste campo é fundamental que Portugal suba nos rankings internacionais em que muitas vezes fica mal classificado nas regras de investimento estrangeiro, na burocracia, na flexibilidade laboral, etc... Na hora de investir e escolher a localização, a análise de investimento passa por esta fase. Penso que tem estado a ser feito um trabalho de diplomacia económica bem feito, tem havido alterações em algumas áreas internas que melhoram nitidamente a capacidade de captação de investimento e Portugal tem de facto condições óptimas para se investir e para se viver. Há que passar bem esta mensagem aos potenciais investidores.

Há algum sector em que IDE seja mais premente?

Seguramente o que gera mais emprego. Qualquer que seja. o mais e o menos qualificado, temos muitos desempregados cuja qualificação não é alta e também precisam de ocupação.

In Jornal de Negócios, 2 de junho de 2014