A importância deste estudo

A necessidade de contrariar a todo o custo todos os fatores de eventual desperdício explica a obsessão das empresas portuguesas com temas como as métricas para avaliar os seus processos de inovação.

Professor Daniel Bessa, Diretor-Geral da COTEC
Professor Daniel Bessa,
Diretor-Geral da COTEC

Temos perante nós os resultados do “ Innovation Survey ” em boa hora desencadeado pela PwC. Foram inquiridos 1,757 executivos, de outras tantas empresas, de 30 setores de atividade, em 25 países – sendo- -nos grato verificar uma boa representação das empresas portuguesas, com 60 respostas (num trabalho em que a COTEC Portugal se envolveu modestamente, limitando-se a promover a resposta ao questionário junto dos seus Associados).

O mundo é, cada vez mais, uma “aldeia global”, não sendo de estranhar um elevado grau de alinhamento das respostas obtidas de executivos de topo de grandes companhias. As pessoas partilham a mesma informação e, muitas vezes, a mesma formação. Diferirão, quando muito, as circunstâncias ou o contexto em que operam, tanto as pessoas como as empresas, seja em matéria de ambiente macroeconómico, seja no que se refere ao ambiente cultural.

Não admirará, por isso, que as respostas dos executivos portugueses surjam muito alinhadas com as dos seus congéneres dos outros países inquiridos. Daí que nos proponhamos incidir sobretudo nas diferenças identificadas.

A diferença maior reside no foco principal da atuação das empresas portuguesas. Comparadas com as espanholas (as nossas vizinhas mais próximas), as europeias e as mundiais, enquanto estas se focam sobretudo num crescimento moderado (45% ou 46% do total das empresas, nos três casos), ou mesmo num crescimento agressivo (23% a 28% do total das empresas, nos três casos), as empresas portuguesas encontram-se sobretudo focadas em problemas de consolidação e de redução de custos de produção (prioridade de 40% das empresas portuguesas, que desce para valores entre os 17% e os 21% nos outros três casos). Só 38% das empresas portuguesas têm como prioridade um crescimento moderado, percentagem que desce para 10% no caso de um crescimento agressivo – resultado das agruras de um universo empresarial que se vê confrontado com custos muito elevados, nomeadamente na frente financeira, agravados por balanços tradicionalmente caracterizados por muito baixos níveis de capitais próprios.

A escassez de recursos faz-se sentir também na maior dependência das empresas portuguesas face a todas as formas de incentivos, sejam eles incentivos financeiros do Estado (58% em Portugal contra 48% no Mundo, em geral), incentivos fiscais (55% contra 49%), ou outros (47% contra 39%).

É ainda, em parte, a necessidade de contrariar a todo o custo todos os fatores de eventual desperdício que explica a obsessão das empresas portuguesas com temas como as métricas para avaliar os seus processos de inovação, ou o ROI – retorno dos seus investimentos em inovação (primeira preocupação de 70% das empresas portuguesas em matéria de gestão da inovação, acima das 69% que se preocupam com a gestão do talento e das 67% que atribuem grande importância aos processos de desenvolvimento de novas ideias). Repare-se que, a nível mundial, as preocupações maiores em matéria de gestão de inovação consistem em conseguir levar ideias inovadoras ao mercado de forma rápida e escalável (preocupação partilhada por 54% das empresas), e encontrar e conservar o melhor talento para fazer acontecer a inovação (53%).

O fator cultural pesa sobretudo na tendência para um certo isolamento na forma como as empresas portuguesas conduzem os seus processos de inovação – confiando relativamente pouco em parceiros exteriores. Estamos alinhados na importância atribuída aos clientes nos processos de inovação (85% das empresas, em Portugal, contra 86% no Mundo), e mesmo acima na importância atribuída a parceiros estratégicos (93% contra 87%), mas claramente abaixo na importância atribuída a fornecedores (52% contra 68%), aos académicos (35% contra 56%) e aos concorrentes (25% contra 35%), enquanto parceiros dos nossos processos de inovação. Numa inovação que se pretende cada vez mais aberta (um dos eixos por onde passa, hoje em dia, a inovação da inovação), apenas 23% das empresas portuguesas declaram socorrer-se da open innovation (32% em média mundial), percentagem que desce para 7% no que se refere ao recurso a incubadoras (10% em média mundial) e para 3% no que se refere à utilização da figura do corporate venture (11%, em média mundial). Em sentido contrário, 30% das empresas portuguesas declara socorrer-se do design thinking (contra apenas 20% em média mundial).

Motivo de orgulho, pelo menos numa primeira análise, é o facto de 18 empresas portuguesas se encontrarem entre as 359 que constituem o Top 20 no que se refere à qualidade dos processos de inovação utilizados (5% das empresas do Top 20 , contra uma percentagem que não excederia os 3% no total de empresas inquiridas).

Este resultado só não deve ser mais valorizado porque exprime, em parte (embora menos do que em outros exercícios congéneres), uma autoavaliação por excesso em matéria de atitudes e de importância atribuída à inovação, sem correspondência nos resultados “puros e duros” dos processos de inovação. Decorre, desta falta de sintonia, o recurso a processos de inovação relativamente pouco formalizados, em que a inovação tende sempre a estar melhor posicionada enquanto prioridade estratégica (em termos de formulação) do que em domínios como o planeamento estratégico ou, mais prosaicamente, a capacidade de execução das estratégias delineadas. Mais um traço cultural, a relativa desorganização, a par da pouca confiança em terceiros, atrás aflorada.