Aproveitemos melhor o que temos - os nossos recursos

São Josemaría Escrivá costumava dizer que "infeliz de quem tem desculpas porque há de sempre encontrá-las". Na vida profissional, como na pessoal, somos influenciados por uma série de fatores: motivação, dedicação, organização, disciplina, entre outros, todos influenciados e "decididos" por nós próprios, mas também outros que não controlamos, mas são muitas vezes comprometidos por nós, quando não fazemos o que é correto e/ ou não aproveitamos as oportunidades que nos vão surgindo. Há, pois, muitos fatores que nos preocupam ou que nos causam alguma ansiedade, mas em que a nossa influência é pequena ou pouco ou mesmo nada relevante. Porém, há outros fatores em que temos influência e podemos certamente fazer mais. Basta que nos empenhemos, que queiramos implementar soluções apropriadas e que, em primeiro de tudo, tenhamos a consciência do que somos e queremos para o nosso futuro.

Assim, e no que ao país de todos os portugueses diz respeito, há um conjunto de aspetos e recursos que são nossos, não são copiáveis, são (in)digitais, logo distintivos, e que a todos nos devem servir de reflexão. Então, que recursos aproveitamos nós de forma errada e ineficiente? Desde logo, no turismo. Estranho? Não. Apesar de Portugal ter o desenvolvimento a que todos assistimos, voltando a registar um ano recorde e sendo um dos "motores" da nossa economia, pelo emprego que gera e as sinergias noutros sectores que cria, no último ranking sobre as estatísticas e informação deste importante sector, Portugal ocupava o lugar 87°, tendo caído de 72°. Nesse mesmo ranking, Espanha é o 2°, Turquia o 5° e França o 14°. Ora, qualquer empresa, país ou sector precisa de ter informação para saber bem o que deve enaltecer e continuar a fazer, bem como para reconhecer o que não está a seguir o caminho correto e ser capaz de retroceder ou mudar a trajetória.

E na economia do mar, tantas vezes falada e prometida, mas com tão pequenos incrementos. Portugal, com a sua plataforma continental, coloca-nos como um dos maiores países do mundo em extensão. Ainda recentemente no Barómetro da Economia do Mar da PwC, foi mostrado, pela 7a vez, o estado de alguns dos sectores mais relevantes ao longo de uma série de vários anos e o que está ainda por fazer. No mesmo inquérito, 80% dos inquiridos refere que é possível fazermos muito mais e que portanto o aproveitamento é insuficiente. Na aquacultura, por exemplo, sendo Portugal um dos maiores consumidores per capita de peixe, e sendo esta a única forma de produção de peixe que cresce no mundo, Portugal produz uma parcela muito baixa do que consome, apenas 6%, o que compara com os quase 50% de média na Europa. Ou ainda na qualidade dos portos, que no último ranking do World Economic Fórum, Portugal situava-se na 30s posição, enquanto Holanda, Alemanha, Bélgica e Espanha estavam nos 15 primeiros lugares.

No talento, como afirmava um CEO de uma grande empresa alemã, "a engenharia portuguesa é o segredo mais bem guardado do país". Portugal neste domínio tem ainda a maior taxa nos países europeus de trabalhadores por conta de outrem e por conta própria sem o nível secundário completo, 61% e 45%, respetivamente. Estamos a melhorar? Sim, mas ainda nos espera um longo caminho e, mais uma vez, também aqui podemos fazer melhor. É que a este nível, nas empresas, Portugal é também um dos países da OCDE que menos formação dá aos seus colaboradores, apenas 10% nos mais seniores (55-64 anos) e 31% nos mais jovens (25-34), o que compara com a média de 22%, 37% na OCDE ou na Suíça de 40%, 52% ou Suécia, 60% e 70%, respetivamente. Ou seja, o que não fizemos para trás, agora só o podemos corrigir e daqui a uns anos estarmos aos melhores níveis mundiais, mas a formação nas empresas é da nossa responsabilidade.

Por último, o investimento e as exportações. Não há países competitivos no mundo com a nossa dimensão que não tenham um grau de abertura ao exterior superior a 100% (a soma da percentagem sobre o PIB das importações + as exportações). Na Irlanda ultrapassa mesmo os 200%, na Bélgica 167%, Holanda 154%, ou na Suíça 115%. Portugal fica-se neste indicador pouco acima dos 80%. Apesar disso, é bom enaltecermos que se hoje a percentagem sobre o PIB nas exportações é superior a 40%, há seis anos estava ainda nos 30%, e todos os governos têm reforçado a sua intenção para que cheguemos aos 48% ou 50%, mesmo assim, na Suíça é 63% e na Holanda 83%. Os dados do Eurostat mostram claramente que o que fez crescer a Europa nos últimos anos (2012-2015) foram as exportações, mais do que o consumo e muito mais que o investimento, que foi mesmo negativo naquele período. Portugal foi considerado ainda recentemente o 5° país mais pacífico do mundo e o 19° melhor para investir por importantes publicações internacionais, pelo que apresentamos um potencial de captação e desenvolvimento do país maior do que o que estamos a conseguir fazer.

Termino como comecei: Portugal precisa de melhorar a sua capacidade de implementar o potencial que tem, pois este não nos levará à prosperidade que todos ambicionamos, não podemos continuar a deixar arder mais de 50% de toda a área ardida europeia, quando o nosso país não chega a 1% dessa área. Não nos podemos deixar envolver nas palavras quando o futuro faz-se de ações concretas naquilo que cada um de nós pode fazer. Gostamos deste país, com a cultura, o povo, o clima, a gastronomia, a nossa forma de estar no mundo, honramos a nossa história, somos capazes de fazer muito melhor no que podemos. Fernando Pessoa dizia que "o mundo não é o que vemos senão o que somos". Temos, pois, que compreender melhor o mundo, as pessoas, as empresas, dando profundidade e suporte às análises que fazemos, sabendo mais e conhecendo mais, de modo a que as nossas opções sejam também mais adequadas, exigindo transparência na utilização dos recursos e na sua aplicação, programas e iniciativas.

António Brochado Correia, PwC Partner
In Expresso, 25 de fevereiro de 2017


"Portugal foi considerado o 19° melhor país para investir por importantes publicações internacionais, pelo que apresentamos um potencial de captação e desenvolvimento do país maior do que o que estamos a conseguir fazer."

António Brochado Correia, PwC Partner

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