As pessoas e a 4ª revolução industrial

A maior empregabilidade situa-se hoje em dia nos que revelem maiores capacidades sociais, porque sendo mais escassas tornam-se mais necessárias às empresas num mundo que é cada vez mais relacional.

Jim Collins, no best-seller "Good to Great", referia-se às pessoas como "não sendo o melhor ativo das empresas, as boas são". Esta frase pode parecer fria quando não explicada — na verdade o que o autor pretende dizer é que qualquer organização, empresa ou país, para passar de bom ou razoável a excelente tem de ter as pessoas certas a bordo, com as aptidões, os traços de personalidade e as capacidades adequadas. Dito isto, as pessoas continuarão a ser o fator distintivo nas organizações, o fator (in) digital, pois tudo o resto será mais ou menos copiável. Este conceito não é novo, nem tão-pouco está relacionado com a geração atual ou a anterior ou mesmo as futuras. 

Um mundo em permanente mudança implica que pessoas e organizações sejam flexíveis, ágeis e se adaptem às novas realidades. Sócrates (morreu em 439 a.C.) já se referia aos jovens assim: "Não tenho nenhuma esperança no futuro se ele depender da juventude de hoje". Onde é que já ouvimos isto? No entanto, se contarmos as gerações que já passaram entre uma e outra época chegaremos à conclusão de que o importante é que jovens e menos jovens se entendam e se percebam mutuamente.

Nos últimos CEO Surveys da PwC, a preocupação com o talento e as competências essenciais tem vindo a ser progressiva — em 2016, 76% mostravam-se preocupados, 5 anos antes eram 53%. A questão é: qual então o talento necessário? A resposta é simples — a escassez é precisamente no que menos se forma e mais difícil se interioriza, que depende mais dos traços de personalidade ("traits") que das capacidades ("skills") que são naturalmente mais treináveis e mais facilmente aprendidas. 

Cada um de nós influencia e é influenciado pelo ambiente que nos circunda e em que vivemos. O PISA nas avaliações que faz da capacidade dos países no seu processo educativo, recentemente anunciou que a sua avaliação vai estar mais focada no indivíduo/cidadão e nas suas competências globais que no seu currículo. Recentemente, uma reputada universidade nacional num estudo que fez sobre as matérias mais sociais ministradas ao longo de um curso concluía que não chegavam a 2%.

Num estudo publicado nos EUA numa série desde 1980 conclui-se que a maior empregabilidade está nas maiores capacidades sociais, porque mais escassas tornam-se mais necessárias às empresas num mundo que é mais relacional. Também a revista "The Economist" em 10 características mais relevantes para a organização em 2020, as 6 primeiras eram relacionadas com as mesmas características. 

Cerca de 2 mil milhões de cidadãos são hoje os denominados millennials, cuja idade vai dos 18 aos 33 anos. Representam já hoje 2/3 da firma onde hoje me insiro, alguns já são líderes mundiais, são uma boa parte da nossa mão-de-obra mais qualificada e são e serão os consumidores dos nossos produtos e serviços. É preciso por isso compreendê-los, como colaboradores e como compradores. Vivem na época do digital, compram e 'vivem' num mundo em que parece que tudo está à distância do click. Num minuto, mais de 3 milhões de publicações se adicionam ao Facebook, 30 milhões de mensagens se enviam via WhatsApp e cerca 80% dos dados a circular no mundo têm menos de 2 anos. 

Estes millennials, num estudo sobre o que os faz felizes, a parte mais material, "ter dinheiro suficiente para viver como gostaria" aparece em 6° lugar, sendo as primeiras posições destinadas aos amigos, família e sentirem-se bem. Noutra análise, sobre o que privilegiam no empregador, o desenvolvimento pessoal e a reputação da instituição surgem destacados em 1° e 2° lugar. São os mesmos que, em 86% dos respondentes, consideram sair da organização se não se identificarem com a sua responsabilidade social corporativa.

Do mesmo modo que a 1ª revolução industrial não se confinou ao vapor, a 4ª também não é só tecnologia, mas é transformacional nas pessoas e no posicionamento que ocupam, aliás qualquer organização que não se transforme e swe adapte às tendências desta nova revolução e se 'fique' pela tecnologia não será bem-sucedida. O mundo não recompensa hoje as pessoas pelo que sabem, mas pelo que conseguem fazer com as competências que possuem. 

Numa altura que se discute o novo currículo de matérias para os 12 anos de ensino, estas reflexões podem servir para que melhor se enquadrem as necessidades das empresas e do país e as respostas que lhe queremos dar e não passarmos os anos a revisitar os programas, como aconteceu por 14 vezes nos últimos 16 anos. A preocupação das pessoas não deve ser que as que têm boa formação saiam do país mas que que cá ficam a tenham.

Os grandes líderes apontam caminhos mas deixam a criatividade fluir. O importante na educação é preparar os alunos para o futuro, adquirir as competências de navegação e não saber qual a direção, apostar mais no desenvolvimento das pessoas do que no crescimento, que será a consequência — Henry Ford um dia respondeu "que se perguntasse aos colaboradores o que queriam, eles responderiam: um cavalo mais rápido". No mundo da 4ª revolução industrial, a preparação das pessoas e do talento tem de ter a mesma rapidez, compreensão e escala da tecnologia.   

António Brochado Correia, PwC Partner

In Expresso, 10 de junho de 2017

 
“O mundo não recompensa hoje as pessoas pelo que sabem, mas pelo que conseguem fazer com as competências que possuem”

António Brochado Correia, PwC Partner

Contacte-nos

Pedro Palha
Manager
Tel: +351 213 599 651
Email

Siga-nos