"A economia portuguesa precisa de capital"

A área de Transaction Services da PwC assinala duas décadas em Portugal. Luís Boquinhas, o "partner" responsável pelas fusões e aquisições afirma que o capital internacional vai continuar a entrar em Portugal.

Portugal precisa de capital e do que tem chegado oriundo do Oriente, sobretudo chinês e japonês, da Europa e dos Estados Unidos. Luís Boquinhas considera que não há uma concentração e que o capital internacional vai continuar a entrar, o que não acontecia antes da crise financeira de 2008.

Luís Boquinhas, Transaction Services Partner da PwC, área a que pertence há 17 anos, tendo participado em mais de 150 operações. Explica que tem experiência na área da energia, pois foi uma área que teve muitas transacções, infra-estruturas e na área financeira, que também se tem caracterizado pelo grande número de negócios. Licenciado em Gestão Financeira pelo ISCTE -Instituto Universitário de Lisboa, entrou para PwC em 1995 pouco depois de terminado o curso.

Como é que caracteriza o mercado de fusões e aquisições em Portugal? Quais as tendências?
A crise financeira mostrou que o financiamento das empresas da economia portuguesa estava muito dependente do sistema financeiro. Por sua vez o sistema financeiro deixou de poder aportar o apoio financeiro que deu à economia porque ele próprio estava demasiado alavanca-do e precisou de capital e esse capital não é fácil de encontrar. O que se está a assistir é a uma redução dessa exposição das empresas ao sistema financeiro através da troca de dívida por capital, que de um modo geral está a vir de "players" internacionais. Muitas das transacções que temos visto em Portugal num passado recente estão associadas a este movimento mais longo e que vai levar tempo a ser feito. As privatizações, em que o Estado procurou através das vendas de activos o equilíbrio das contas públicas, foram uma tendência recente. Mas nos últimos três a quatro anos, muitas das transacções efectuadas são dos grandes grupos económicos portugueses. Identificam activos que não fazem parte do negócio principal e alienam-nos para reforçar os seus fundos próprios de forma a reduzir a sua exposição financeira. Isto permite que investidores financeiros ou estratégicos tomem conta desses negócios. Tem sido uma tendência muito significativa que se caracteriza sobretudo com a entrada de novo capital para se fazer a reciclagem de dívida para capital ou para híbridos de capital.

É uma tendência para continuar?
A economia portuguesa ainda precisa de injecção de capital e parte dessa injecção pode ser feita por "private-equity " locais mas vai haver uma tendência contínua de haver capital internacional a entrar no nosso mercado, o que não era uma característica antes da crise financeira que se iniciou em 2008. Até então havia muito pouca presença de investidores financeiros internacionais em Portugal, o que tinha a ver com duas situações. Por um lado, alocavam a Portugal um risco adicional no período pré-cri-se e, depois da crise, verificou-se que as suas suspeitas eram fundadas. Por outro lado, os negócios em Portugal são relativamente pequenos, e um grande "private-equity" internacional procura investimentos de uma determinada dimensão e não havia muitos disponíveis naquela altura. Quando se entrou no processo de privatizações surgiram activos grandes no mercado e isso levou a interesse de investidores financeiros. Simultaneamente, os investidores financeiros na Europa estão com muita liquidez e isso faz com que tenham necessidade de olhar para investimentos mais pequenos do que acontecia no passado. 

Mas além da Europa...
Existe muito capital do Oriente a entrar, sobretudo chinês e japonês. O japonês julgo ser mais uma forma de alocar capital enquanto o chinês, além de alocar capital, também tem um interesse estratégico porque conseguem obter "know-how" e uma porta de entrada na Europa através de Portugal. Em outros países pode haver uma maior resistência à entrada de capitais chineses ao contrário de Portugal, até porque não estamos numa situação em que possamos fazer outras opções. Portanto o capital que vem é europeu, asiático e algum americano. Vem de muitas fontes e não há uma concentração. Quando se olha para investidores financeiros a origem dos fundos não é fácil de identificar. São fundos europeus ou americanos mas não se sabe onde é que o capital foi efectivamente capturado e provavelmente foi em todo o mundo e não apenas nas jurisdições em que estão sediados.

Quais são as principais motivações desses investidores?
Portugal é um país com inovação e com alguns modelos de negócios interessantes e já começa a haver alguns tipos de fundos especializados neste tipo de soluções, fundos mais pequenos que se focalizam em empresas com soluções técnicas inovadoras ou direccionadas para um segmento emergente de mercado.

O que trazem? Dinheiro, gestão?
Não foram apenas os fundos internacionais de private-equity, vieram também empresas multinacionais. O que trazem fundamentalmente é capital, de que as empresas portuguesas estão necessitadas. Depois trazem escala porque podem tentar capturar sinergias através da distribuição que podem fazer da produção feita em Portugal. Podem ser sectores em que têm outros investimentos e podem juntar esses activos e obter sinergias ou podem criar sinergias pelos mercados a que podem ter acesso. Pode haver também investidores financeiros que entram em Portugal para um primeiro investimento com objectivos de melhor dispersão do seu capital investido. A sua principal motivação é fazer um bom negócio e a maior parte destes fundos considera que Portugal vai melhorai; e que comparando quando o país estava em crise podem fazer uma recuperação interessante do seu investimento. 

 

Gestão de projecto e de relações são decisivas na consultoria de transacções

As principais competências de uma equipa de transacções são a de gestão de projecto e a capacidade de gerir relações com os "stakeholders" do negócio. São fundamentais na consultoria de transacções.

A equipa da PwC que faz fusões e aquisições é composta por cerca de 100 pessoas, que cobrem as várias tipologias de trabalho e encontram-se repartidos pelos escritórios de Lisboa e Porto e operam em Portugal e Angola. Existem três áreas da empresa que estão envolvidas nestes processos, que é a área de Transaction Services, que faz o "due diligence" financeiro, a área de Corporate Finance, que inclui intermediação de transacções, avaliações, auditoria a modelos, projectos de capital e reestruturação, e o Tax M&A que tem enfoque no due diligence fiscal e estruturação fiscal.

Em termos de equipa este trabalho tem muitos componentes. Quais são as competências que a equipa tem de ter?
Um bom consultor de M&A precisa de ter uma boa combinação entre o conhecimento de negócio e um conhecimento profundo sobre avaliação e análise financeira. Se estivermos a apoiar na área fiscal terá de ser especialista fiscal. O consultor nunca vai saber mais do que as pessoas que estão nas empresas, mas é importante ter capacidade de diálogo, ver os riscos que existem porque se não percebermos o negócio não é só pelos números que se consegue compreender todo o contexto do negócio. Depois temos de ter competências na compreensão das implicações de negócio que decorrem de uma avaliação e da visão do impacto financeiro de determinados pormenores que existem na informação financeira. No fundo fazer uma avaliação é sempre olhar para o futuro e prever o que vai acontecer. Frequentemente a informação financeira histórica é uma pista para se fazer uma previsão do futuro, mas, muitas vezes, nem sempre é o melhor estimador. Pode estar perfeitamente correcta do ponto de vista contabilístico, mas não ser o melhor estimador para o futuro, quer porque o negócio está a mudar, quer porque inclui algumas transacções que não são excepções. Parte do nosso trabalho é limpar toda a informação dessas situações anormais e procurai; neste trabalho de "due diligence", dar uma visão normalizada do que é o resultado histórico da empresa e procurar que esse resultado histórico seja uma ponte para o futuro.

Quais são os principais riscos depois de fazerem uma avaliação, sobretudo agora que os modelos de negócio estão a mudar rapidamente, não são estáveis?
Quando um cliente está a fazer a avaliação de um negócio nos dias de hoje é com base em várias tendências, mas a tecnológica é um dos "drivers" mais importantes. Os modelos de negócio alteram-se e é preciso pessoas que tenham conhecimento profundo do negócio que possam prever como vai ser o futuro, tendo em consideração que as coisas estão a mudar e que não vão ser tão iguais ao passado, como acontecia há duas ou três décadas atrás. São situações de risco elevado para um comprador, para alguém que está a investir. Existem outros activos que mesmo com o mundo em mudança continuam relativamente estáveis. Por sua vez a falta de estabilidade regulatória provoca risco adicional para o mercado, ou seja, o que o investidor procura no mercado é que haja alguma estabilidade ou que a instabilidade seja previsível porque estes investimento normalmente são feitos com margens de "upside" (potencial de valorização) relativamente baixas. Se existe uma alteração regulatória que tem impacto na rentabilidade do activo em que investiram, pode ser a diferença entre ter um rendimento normal face ao risco para não terem rendimento ou mesmo terem prejuízo significativo.

O que é mais crítico no negócio das transacções? A avaliação?
Todos estamos a trabalhar para o valor que alguém vai dar pelo negócio. O processo de avaliação é que é composto por uma série de outros trabalhos. A avaliação em si é muito importante e para que se consiga fazer uma avaliação adequada temos de pensar na estruturação da transacção que tem sempre vertentes financeiras e fiscais importantes, depois temos de ver quais são os riscos financeiros, como é que criamos "inputs" para avaliação com base na informação histórica, como se tratam os riscos fiscais, os riscos regulatórios e legais, técnicos. Uma das principias competências que uma equipa de transacções tem de ter é a de gestão de projectos, porque numa transacção média está-se a falar de cerca de 100 pessoas todas a trabalhar num projecto, desde as pessoas dos compradores e do vendedor aos assessores das várias áreas. A gestão de projecto e a capacidade de gerir relações com os "stakeholders" do negócio é fundamental para ser um bom consultor de transacções. A avaliação é para qual todos temos de contribuir, e é isto que é importante para o cliente. 

In Jornal de Negócios, 21 de dezembro de 2016