Genéricos: inovar para assegurar a sustentabilidade

Genéricos: inovar para assegurar a sustentabilidade

Preço. É a primeira coisa que nos ocorre quando pensamos nas diferenças entre medicamentos genéricos e os ditos medicamentos de marca.

Em Portugal, a formação dos preços dos medicamentos genéricos é fortemente regulada, tendo a lei obrigado, em 2008, a uma redução em 30% do PVP dos medicamentos genéricos com preço de venda superior a €5.

A manutenção artificial dos preços em baixa traz vantagens sociais (maior acesso pelo doente e ganhos em saúde) e económicas (redução da despesa pública em medicamentos), mas coloca a indústria farmacêutica de genéricos numa situação fragilizada. O facto é que, para além de ter de lidar com a pressão dos preços, esta indústria tem de cumprir com critérios de qualidade cada vez mais exigentes, proteger-se contra práticas de contrafação, e resolver os conflitos de interesses com a indústria originadora. Sabe-se que em Portugal, alguns dos processos judiciais interpostos a empresas de genéricos por alegada violação de patentes, têm como fim único adiar a introdução no mercado daqueles medicamentos.

Acresce a isto o fear fator que muitos doentes ainda sentem pelos genéricos.

Os tempos não são fáceis para a indústria de genéricos. Se quiser manter a sustentabilidade, é essencial que se adapte e procure novas soluções. Por exemplo, em Portugal, existe ainda um elevado número de substâncias ativas sem genéricos, que constituem potenciais áreas de expansão para esta indústria. Por outro lado, a cadeia de valor ainda tem espaço para ser melhorada (não obstante a controvérsia gerada com a produção de genéricos associada a farmácias).

Em particular, a inovação terá de assumir um papel central. Habituámo-nos a olhar para a indústria de genéricos como seguidores, mas um pouco por todo o mundo, esta indústria tem investido cada vez mais em I&D. O número de patentes solicitadas por empresas de genéricos ao European Patent Office tem sido crescente. Aperfeiçoamento de fórmulas, métodos de produção, sistemas de distribuição, métodos de adesão à terapêutica pelo doente, são exemplos de áreas onde se pode inovar.

No fundo, pretende-se com a inovação, nas suas várias vertentes (marketing, produto, processo e organizacional) desassociar os genéricos da velha máxima “produtos iguais, preços diferentes”, ajudando-os a afirmarem-se como produtos diferenciadores, que o consumidor opte por comprar por razões intrínsecas ao produto, e não apenas porque são mais baratos.


Autor: Celeste Iong
Publicado no Diário Económico, maio 2010.