Portugal é central

Nasser Sattar
Partner
Financial Services Lead

Com a deslocalização do crescimento económico para países emergentes, Portugal pode deixar de ser periférico. O previsto acordo de comércio entre a União Europeia e os Estados Unidos, o alargamento do canal do Panamá, o dinamismo económico do Atlântico Sul, onde os espaços que falam português (localizados em cada uma das suas margens) assumem uma relevância significativa, bem ainda como a atual “maturidade” de Angola, a recente popularidade de Moçambique e a importância do Golfo da Guiné, são elementos que determinam que a nova centralidade geoeconómica pode ser altamente favorável para Portugal.

A presença de Portugal na CPLP assume assim um papel muito relevante. Isto porque os países que a integram, para além da sua relevância individual, ganham agora um peso económico ainda maior por se encontrarem inseridos em zonas de integração económica com elevado potencial. De facto, a CPLP insere-se em seis espaços regionais económicos, abrangendo cerca de 1.800 milhões de pessoas. A oriente, Macau, mesmo não integrando a CPLP, é sede do Fórum para as Relações Económicas e Comerciais entre a China e a CPLP. Portugal pode, e deve, pois, ser um hub preferencial de comércio de bens e serviços e de investimento entre estes espaços e a União Europeia e entre esta e os Estados Unidos.

Países como Moçambique, Angola ou a República Democrática do Congo, entre outros, possuem um crescimento previsto acima dos 7% ao ano e apresentam inúmeras oportunidades de investimento para as empresas portuguesas em áreas diferenciadas. Agricultura, pesca, educação, turismo, comércio, indústria, ciências e tecnologias são áreas estratégicas para investimento estrangeiro.

Apesar de existirem ainda muitos desafios, as empresas portuguesas que já exportam para África (ou que pretendam fazê-lo) deparam-se com um quadro legislativo que oferece muitas vantagens. Aliás, muitos daqueles países têm já acordos bilaterais celebrados com Portugal de proteção recíproca de investimento e para evitar a dupla tributação.

África pode assim tornar-se o mercado externo mais importante para Portugal apesar de ser uma decisão estratégica das empresas portuguesas. O Governo pode até ajudar na criação de plataformas políticas adequadas e que facilitem a internacionalização das empresas portuguesas, mas a escolha cabe ao setor privado. Os empresários precisam de entender que os riscos são controláveis, apesar do início recente do desenvolvimento económico e das necessidades existentes em infraestruturas, pelo que o ambiente de negócios poderá não ser o mais fácil. Contudo, uma vez superadas estas barreiras iniciais, o ganho e o potencial são tremendos, particularmente se os investidores tiverem uma estratégia de longo prazo, crescimento sustentável e contribuírem para o desenvolvimento económico e social dos países.