Portugal já não é um país periférico

Jaime Esteves

Porquê o Países Como Nós 2?
Porque o objetivo do primeiro projeto - comparar países de dimensão e características similares ao nosso e largar o paradigma de comparar o que não é comparável - correu bem. Penso que não nos saímos mal como país na comparação e identificámos os pontos fortes e fracos. Tendo feito isso na primeira edição, pensamos que agora podemos estabelecer horizontes de uma forma mais precisa. Como no automobilismo, temos que manter o olhar no carro que vai à nossa frente. Assim, podemos perceber quais as nossas metas, sector a sector.

Agora é a fase do zoom-in?
Sim, porque do trabalho que fizemos o ano passado resultou claro que alguns países tinham valências muito fortes em determinadas áreas. E achámos necessário fazer agora um aprofundamento dessas áreas, escolhendo para cada uma o país que possa servir como benchmark, como referência para Portugal.

Houve um país que acabou por ser excluído, a Grécia.
Infelizmente, a Grécia saiu por razões claras. Neste momento o país não é comparável porque está sob um programa de ajuste muito mais doloroso do que o nosso e num momento de grande incerteza. Qualquer comparação seria enviesada. Assim, excluímos a Grécia e acabámos por introduzir um tema novo: a imagem externa do país. Nós entendemos que a imagem vai ser fundamental para a promoção do país, a nossa competitividade vai depender muito do investimento estrangeiro, da internacionalização das nossas empresas e da exportação de bens e serviços, onde mais uma vez a imagem externa é fundamental.

Mas fazendo uma comparação área a área, podemos perder com todos.
Assumimos esse risco voluntariamente. O que é importante é que consigamos perceber porque é que os outros países são excecionais num determinado sector. Vamos comparar-nos com os melhores, sector a sector. Mas não é claro que alguns países não estejam a ter dificuldades nesse sectores...

Como por exemplo?
Repare na Bélgica, um 'campeão' da competitividade fiscal, inserido no Benelux, talvez a região mais competitiva a par da Irlanda nesta área. Tem há alguns anos um conflito com a Comissão Europeia porque algumas das regras são alegadamente discriminatórias e podem falsear a concorrência. Além disso, a Bélgica tem uma enorme pressão orçamental e pode ter de aumentar a receita fiscal rapidamente. Vai ser curioso ver como é que Bélgica aumenta as receitas e mantém competitividade fiscal. Repare também na República Checa que tem uma forte base industrial: como é que vai ser competitiva se tiver que aumentar os custos salariais? São muitos os exemplos. Nos 'países vencedores', vamos encontrar um conjunto de situações difíceis, com muitas decisões complexas para tomar. Isso significa que nós temos boas oportunidades para nos aproximarmos dos países que servem de referência.

No estudo feito o ano passado, a Bélgica era o país que surgia como referência...
Sim, e o facto de a Bélgica estar obrigada a tomar medidas que lhe retiram competitividade fiscal pode acabar por ser uma excelente oportunidade.

A imagem externa depende muito da Justiça, da lei laboral ou da política fiscal. Na Justiça existem mudanças, a lei laboral foi mudada, mas na área fiscal é difícil mudar. Qual é a nossa margem fiscal?
Neste momento, zero. Enquanto durar o ajustamento, a nossa capacidade de alterar incentivos fiscais é nula. Mas a política fiscal não se joga só aí. Temas como a estabilidade da legislação, a simplicidade ou a transparência da legislação têm grande peso na elaboração dos rankings internacionais. Enquanto não é possível criar novos incentivos podemos trabalhar na simplificação do sistema e na fiscalização para alargar a base da tributação.

Falta-nos a capacidade de pensar a longo prazo?
Estes países pensaram o seu futuro a longo prazo e de uma forma estratégica. Isso permitiu-lhes ter um consenso interno que nós não tivemos. É esse o nosso contributo: ajudar a perceber onde queremos chegar e como é que queremos chegar. Precisamos de identificar as nossas vantagens competitivas. Por exemplo, neste momento Portugal não é um país periférico. Com o peso económico a deslocar-se para o Pacífico e para o Atlântico Sul a nossa posição é muito mais central. Se pensarmos uma política fiscal para incentivar a captação de sedes de empresas multinacionais para investir nos países lusófonos podemos ter descoberto um motor de crescimento.

Ricardo Costa, diretor do Expresso

 

Nota Editorial

Aprender a olhar para os outros

Em 2011, o Expresso e consultora PwC lançaram o projeto Países Como Nós. Durante dez semanas comparámos Portugal com países 'comparáveis'. O projeto - liderado por Diogo Freitas do Amaral - assumiu a rutura com as clássicas comparações com países como Espanha, França, Alemanha ou EUA. População, PIB ou dimensão territorial - entre outros fatores - são seguramente indicadores que permitem comparações mais lógicas. Foi assim que chegámos à Bélgica, Finlândia, Áustria, República Checa, Croácia ou Irlanda. E - para também assegurar diversidade geográfica - ao Chile ou à Nova Zelândia. A comparação mostrou que Portugal tinha bons indicadores em alguns sectores, mas revelou acima de tudo que todos esses países tinham áreas em que eram excecionalmente competitivos. Foi isso que nos trouxe até ao Países Como Nós 2.

O que agora pretendemos é olhar para os mesmos países mas focar a atenção numa só área. Porque é que a Bélgica é excecionalmente competitiva em questões fiscais? O que faz da República Checa um país com um mercado laboral mais atrativo? A competitividade da Irlanda é atingível por Portugal? Os resultados da Justiça finlandesa são replicáveis? Queremos tentar responder a estas perguntas e ajudar a abrir os caminhos que Portugal pode trilhar.

Num período de regaste externo é importante perceber que a 'receita' da troika não serve para tudo. Sem pôr em causa o que está escrito e assinado no memorando, Portugal deve ter a capacidade de olhar mais longe. É, aliás, vital que o faça. Cumprir o acordo com a troika, garante o financiamento do Estado e assegura algumas reformas estruturais. Mas não garante qualquer visão estratégica sobre o futuro de Portugal. Quando se olha para outros 'países como nós', o que se vê é que essa visão estratégica, muitas vezes decidida há décadas, promoveu consensos nacionais e assegurou objetivos de longo prazo. Só assim podemos transformar um momento de sofrimento numa oportunidade de mudança e crescimento.

A fotografia apresentada nesta página foi tirada pelo fotografo Tiago Miranda