Portugal: agora nós

Imagem de Portugal. Depois de comparar Portugal com oito "países como nós", olhamos para a nossa imagem. Um fator crítico nos tempos que atravessamos.
Ricardo Costa
Ricardo Costa

Comparar Portugal com outros países pode ser um exercício de masoquismo. Mas pode, também, ser um exercício de humildade e, sobretudo, de ponto de partida para alguma coisa. Foi assim que há um ano começamos com a consultora PwC o projeto "Países como Nós" e é assim que agora concluímos a segunda fase desse projeto. Depois de, em 2011, termos identificado os países que, pela dimensão, população ou PIB, podíamos usar como termo de comparação, agora "fechámos" o ângulo de análise: escolhemos para cada um dos países uma só área e comparámo-nos com eles, sector a sector.

Na comparação direta "perdemos" com todos os países que escolhemos como referência, exceto a Croácia, onde o turismo é exemplo de forte crescimento mas em que Portugal ainda leva vantagem. O turismo serve bem de exemplo para a encruzilhada em que estamos: é uma das nossas grandes imagens de marca, mas onde corremos sérios riscos de perder capacidade em captar investimentos estrangeiro relevante ou de ser um destino permanente e de qualidade.

A capacidade de pensamento estratégico é, aliás, o que claramente distingue os países que abordámos e as áreas que escolhemos. Não é seguramente por acaso que a Bélgica consegue ser num período longo uma país com uma fiscalidade competitiva, apesar de elevada. Impostos altos e competitivos? Sim, é possível se houver estabilidade legislativa, decisões previsíveis, rapidez na resolução de litígios. Exatamente o que não há por cá.

O exemplo da fiscalidade na Bélgica pode ser desdobrado na Justiça finlandesa - onde 50% dos casos têm que ser julgados em 60 dias! - ou na forma como a Nova Zelândia transformou uma agricultura altamente subsidiada numa das mais competitivas e inovadoras do mundo. Ou no exemplo de escolha, eficiência e equidade que a Áustria dá na Saúde.

Mas talvez o caso da Irlanda mereça um olhar atento. Foi um exemplo durante dez anos e acabou a pedir ajuda externa, com a banca de rastos, uma bolha imobiliária imensa, um desemprego alto e o regresso em força da emigração. Mas, com alguma rapidez, algumas decisões estratégica - e antigas - permitiram um regresso ao caminho do crescimento. A Irlanda recusou subir impostos e apostou tudo na manutenção e captação de investimento externo, sobretudo em sectores que escolheu, como o farmacêutico e médico ou químico. São esses passos que Portugal ainda não deu: saber aproveitar a geografia, o mar, a língua e a estabilidade política e social para lançar linhas de longo prazo, que nos orgulhem em qualquer comparação.

Ricardo Costa

 

Pedro Aires, Presidente da AICEP
Pedro Aires, Presidente da AICEP
Pedro Aires
Um road map para posicionar Portugal

Posicionar Portugal como um país atrativo para a captação de investimento externo implica um trabalho sólido, consistente e estável no tempo, alicerçado na visão que temos do que somos e do que valemos, e acima de tudo do que queremos ser como nação e como economia dentro de dez anos.

Para tal, há que responder de forma clara a três questões estratégicas e saber afirmar essa narrativa do 'caso Portugal' no exterior: porque somos um país competitivo para atrair investimento externo? A quem queremos passar essa mensagem? Como o devemos fazer?

Somos um país com enorme potencial de captação de IDE porque temos uma economia cada vez mais aberta ao exterior e um modelo cada vez mais amigável do investidor privado; isto porque estamos a desenvolver reformas estruturais muito caras aos ditos investidores, nomeadamente em territórios como a legislação laboral, a justiça económica, a concorrência e a simplificação administrativa.

Mas também temos um conjunto de fatores cuja combinação é poderosa: a posição geoestratégica que nos faz funcionar como uma plataforma giratória entre os blocos económicos europeu, africano e latino-americano é um ativo impagável; a isto acresce que a qualidade das nossas infraestruturas logísticas e de comunicação estão ao melhor nível mundial, os nossos recursos humanos são altamente qualificados e adaptáveis, temos uma série de clusters de fornecedores sofisticados e capacitados para fazerem parte das redes de parceiros dos investidores que cá se instalem e somos um país com estabilidade política e níveis de segurança assinaláveis.

Sendo assim, em quem nos devemos focar no sentido de captar investimento? Tanto naquelas empresas estrangeiras que já estão presentes em Portugal, e portanto sabem avaliar bem as nossas valias e o nosso potencial, além de terem interesse em fazer investimento de expansão da sua realidade nacional de forma a diluírem custos fixos e a ganharem peso das nossas filiais no xadrez de implantação da multinacional pelo mundo fora (o chamado brownfield investment), como naquelas que estão interessadas em investir em Portugal para atingirem os nossos mercados naturais, nomeadamente, o triângulo atlântico (o chamado greenfield investment).

De uma maneira simplificada, pode-se dizer que o investimento de expansão tende a vir muito dos nossos parceiros tradicionais como a Alemanha, Espanha, França e Reino Unido; e o novo investimento tende a ter origem em países como a China, o Brasil, Angola, Estados Unidos e a região do Golfo.

Tendo claro como nos queremos posicionar e onde queremos apostar, há que saber como o fazer: tal trabalho de fundo implica duas estratégias convergentes e sincronizadas que passam pela realização de roadshows junto dos stakeholders destes países, quer eles sejam fundos soberanos, fundos privados, grandes consultoras, importantes bancos de investimento ou reconhecidos escritórios de advogados pelo mundo fora.

Numa segunda vertente, tal política implica também trazer os potenciais investidores a Portugal para os apresentar aos nossos decisores ao mais alto nível do Governo, do Banco de Portugal, da nossa banca, das nossas listed companies e dos detentores dos ativos em causa se o processo de investimento implicar operações de aquisição.

Acredito profundamente que Portugal tem todas as condições para vingar nesta frente, abrindo espaço para o desenvolvimento da nossa economia e resgatando o nosso futuro de uma forma dinâmica e sustentável para voltarmos a crescer: é muito para isso que existe a AICEP!

Pedro Reis, Presidente da AICEP

 

Jaime Esteves, líder dos departamentos fiscal, governo e sector público da PwC
Jaime Esteves, líder dos departamentos fiscal, governo e sector público da PwC
Jaime Esteves
Uma narrativa de 'luxo autêntico'

Portugal será aquilo que quisermos, soubermos e pudermos. Há duas componentes em que o papel do Estado é decisivo: de um lado, o sucesso do resgate financeiro, das reformas estruturais e do redimensionamento do Estado; do outro, a construção de um objetivo comum, de uma imagem identificável e de uma narrativa consensual, mobilizadora e alinhada com esse objetivo e essa imagem.

Trata-se de identificar o que nos caracteriza e a forma como somos vistos externamente e, captada a essência da 'marca' Portugal, promover consistentemente os seus aspetos positivos, mobilizando o país em torno dessa ideia.

Também aqui se trata de obter um pacto social coeso, garantindo uma visão estratégica que seja consistentemente aplicada ao longo do tempo. O que passa por alinhar todos aqueles que podem ser agentes da mudança em torno dessa narrativa comum.

Narrativa 'financeira' (uma nova vida)

Se essa narrativa é, hoje, imprescindível, ela é, simultânea e paradoxalmente, mais credível do que no passado. Isto porque o programa de ajustamento está a evoluir favoravelmente. Logo, nunca o custo de 'entrada' nesta narrativa foi tão reduzido como hoje e o retorno potencial tão elevado.

A narrativa soft vista da Europa

Visto da Europa, Portugal é um país geográfica e culturalmente próximo, com uma língua partilhada por 3,7% da população mundial e que corresponde a 4,6% do PIB mundial. Simultaneamente, é um país que se exprime com facilidade em duas das línguas mais faladas no mundo - a inglesa e a castelhana.

País que, possuindo uma plataforma marítima que é a terceira maior da UE e a 11ª do mundo, com uma extensão de 1,727,408km2, fica na rota marítima de entrada e saída da Europa, dispõe de uma rede viária invejável e de ligações aéreas convenientes, em especial para a Europa e Atlântico Sul.

Ao mesmo tempo, Portugal oferece uma qualidade de vida ímpar, decorrente do clima, segurança, tolerância e hospitalidade. Ou seja, que oferece, em trabalho ou lazer, uma experiência de bem-estar e saúde. O que, aliás, é demonstrável pelos níveis de felicidade atingidos em Portugal. A somar a tudo quanto foi referido, Portugal oferece ainda uma grande capacidade de inovação e níveis de serviço, nomeadamente na indústria, consistentemente elevados, com grande capacidade de adaptação ao imprevisto e à diversidade.

A narrativa soft vista do resto do mundo

Visto do novo mundo, Portugal possui uma elevada capacidade de relacionamento intercultural, largamente demonstrada, que oferece acesso ao velho mundo, sendo, assim, a porta de acesso natural ao mundo da tradição, mas também ao mundo da sofisticação cultural e técnica, bem como a um mercado que ainda é altamente atraente.

Uma síntese (provisória) da nossa narrativa

Procurando uma síntese das pistas deixadas: Portugal é um país no centro do relacionamento entre a velha Europa e novo mundo emergente. Mais, Portugal oferece ainda elevada qualidade de vida, capacidade de relacionamento intercultural e língua global. Tudo com um easy way of doing, agora com a efetividade que caracteriza o atual portuguese way de estar no mundo. Logo, garantida a sustentabilidade futura do turnaround, franquear a porta de entrada no mercado do luxo tradicional tem um ticket muitíssimo baixo.

Jaime Esteves, líder dos departamentos fiscal, governo e sector público da PwC