Portugal VS República Checa

     

Ricardo Sousa Valles,
Senior Manager,
PwC Portugal


"O desenvolvimento económico checo baseou-se na centralidade, tradição industrial, produtividade do trabalho, IDE e forte internacionalização. Portugal, não dispondo de centralidade ou base industrial similar, tem como críticos para o seu sucesso os demais fatores."
 

Jiri Moser,
Managing Partner,
PwC Rep. Checa


"Não sendo já uma economia emergente, a República Checa tem simplificado a tributação e a legislação laboral, reposicionando-se em produtos de valor acrescentado e na internacionalização das suas empresas, melhorando a interligação entre universidades e empresas"


 

Ricardo Sousa Valles, Senior Manager - PwC Portugal

A Desde a sua autonomização, em 1993, como resultado da cisão da Checoslováquia, a República Checa tem traçado um caminho de desenvolvimento no sentido de recuperar do atraso económico que registava, comparativamente à Europa Ocidental.

Na década da adesão à UE, a República Checa acelerou a sua convergência aos padrões europeus, apresentando uma das melhores performances relativamente às economias do antigo bloco soviético.
Em 2011, o ranking do Global Competitiveness Report do World Economic Forum coloca a República Checa em 36º lugar – 10 posições acima de Portugal, que se classifica em 46º no mesmo ranking.
O ritmo de crescimento acelerado que vem registando nos últimos anos teve como base a sua forte tradição industrial que, associada a um custo do fator do trabalho reduzido e a índices de produtividade competitivos, lhe permitiu atrair um importante volume de investimento direto estrangeiro para o país – cerca do dobro do registado em Portugal no período 2004-2008. Neste quadro de desenvolvimento, o setor automóvel assumiu particular importância, o qual, em conjunto com os setores da metalomecânica, maquinaria, vidro e outros de natureza industrial, atualmente representam quase 40% do PIB.

Neste contexto, não deixou de igualmente ser determinante a sua centralidade continental europeia e proximidade geográfica e, em certa medida, até mesmo cultural, dos principais mercados de consumo europeus, alavancada pelos investimentos em infraestruturas de transportes, logística e nos mais de 90 pólos industriais que hoje regista.
Num país de dimensão populacional semelhante ao nosso, apesar de ter partido de uma base de trabalhadores mais qualificados – herança da política social soviética -, a qualidade do ensino não se apresentava compatível às qualificações que vieram sendo necessárias para responder aos novos requisitos que o desenvolvimento económico e empresarial vinham impondo, criando dificuldades acrescidas ao nível da disponibilidade de mão de obra adequada.

Foram então implementadas políticas de modo a atrair trabalhadores qualificados para a República Checa, nomeadamente através da maior facilitação na obtenção de green cards e benefícios fiscais e foi fomentada uma maior aproximação e articulação entre o ensino e o tecido empresarial.

Embora a população checa não tenha ainda atingido os níveis de rendimento apresentados pelos portugueses, traduzido por um PIB per capita cerca de 15% inferior ao nosso (em 2009), os indicadores de desempenho dinâmicos da economia indiciam que está próximo o momento em que seremos ultrapassados - se ainda não o fomos nos primeiros meses de 2011. Essa aproximação resulta do conjunto de políticas económicas, sociais e fiscais adotadas e que se traduziram em fatores de sustentabilidade económico, designadamente:

  • (i) num maior acompanhamento do rendimento das famílias pelos níveis de produção de riqueza – na última década o custo do fator trabalho, na República Checa, cresceu 36.1% e o PIB, 33.6%, enquanto em Portugal, os mesmos indicadores cresceram 32.6% e 5.3%, respetivamente;
  • (ii) na articulação entre o ensino e o tecido empresarial – o número de patentes registadas na República Checa é cerca do dobro das registadas em Portugal;
  • (iii) na adoção da fiscalidade como instrumento de captação de investimento direto estrangeiro e competências – e.g. flat tax; e
  • (iv) na aposta na internacionalização como fator chave para ultrapassar a dimensão do mercado interno, definida além da perspetiva de financeira do equilíbrio da Balança Comercial, mas também num contexto de quadro económico de desenvolvimento – o conjunto de exportações e importações da república Checa representa 130% do PIB, enquanto em Portugal representa 64%

 

Contudo, a República Checa tem ainda um longo caminho pela frente, quer no que respeita à sua imagem externa e governação, que apesar das melhorias significativas, é ainda classificada em 53º lugar no Corruption Perception Index 2010 - Transparency International (Portugal classifica-se em 32º), bem como ao nível do setor dos serviços que, representando quase 60% do PIB, apresenta oportunidades de desenvolvimento, designadamente pelo seu crescimento em inovação e otimização da prestação.

O exemplo checo demonstra a relevância atual de uma base industrial sólida e de um tecido económico com forte fundamentação nos bens transacionáveis. Não podendo Portugal replicar os fatores de centralidade continental europeia, nem a sua forte tradição industrial, a República Checa apresenta-nos exemplos reais que nos devem convocar à reflexão sobre as opções que temos pela frente e os caminhos a seguir, incluindo: otimização da relação entre o custo e a produtividade do fator trabalho, sua qualificação, qualidade do investimento direto estrangeiro, eficiência do regime fiscal e interligação entre as universidades e o tecido empresarial.

 

Jiri Moser, Managing Partner - PwC República Checa

Em 1939 a economia checa incluía-se nas cinco economias mais desenvolvidas a nível mundial, sendo famosa a sua base industrial. A transformação da economia, após 1989, teve por base as indústrias tradicionais, uma força de trabalho qualificada de baixo custo e o investimento direto estrangeiro.

Atualmente a economia checa é uma das mais abertas a nível global e cerca de 80% da economia encontra-se internacionalizada.
Consequentemente, houve um aumento significativo do PIB e do desenvolvimento económico desde os anos 90, sendo o crescimento médio anual do PIB, antes da crise, de 6%.

Alguns analistas e economistas não consideram mais a República Checa uma economia emergente, pois algumas características, como o custo do fator trabalho, são equivalentes aos das economias desenvolvidas.

Existem agora várias atividades, quer no setor público, quer no setor privado, que sustentam o crescimento, incluindo a simplificação da tributação e da legislação laboral, bem como a alteração para produtos de valor acrescentado e a internacionalização das empresas.

No médio prazo é fundamental transformar o sistema de ensino e criar melhor interligação entre universidades e empresas no âmbito da investigação aplicada.