Bem-estar mental e emocional

I - O contexto atual

Durante as “COVID-19 Sessions” que dinamizei para os colaboradores PwC, ficaram bem patentes os desafios pessoais e profissionais que enfrentamos no presente e futuro. Pessoas e organizações vêem-se na necessidade de se reinventarem a múltiplos níveis. Se voltarmos ao início da crise atual, de repente, todos nós nos vimos obrigados a abdicar do nosso dia a dia, tal e qual o conhecíamos. Foram dias, semanas e meses de extrema adaptação em que a nossa casa passou a ser o nosso mundo - com todas as consequências que daí resultam. E aquele modo de vida acelerado travou a fundo. Pelos piores motivos, acabámos por ter que parar. E talvez estivéssemos a precisar disso.

II - Dificuldades e desafios

Na verdade, a nossa necessidade psicológica de controlo ficou bastante afetada com a COVID-19. (Re)aprendemos a viver sem controlar, sem saber ao certo o que estava a acontecer. E o que vai acontecer. Se o momento presente já era importante para a nossa saúde mental, com a pandemia, tornou-se ainda mais fulcral. Tudo ficou mais pausado, feito com mais atenção e momento a momento: desde os procedimentos de higienização, às compras no supermercado ou aquele telefonema para um ente querido. Como estávamos a precisar de abrandar o ritmo, de fazer uma coisa de cada vez... As teorias sobre a origem deste vírus deixam-nos com muitas perguntas e o futuro é também ele incerto. E foi neste contexto, no aqui e agora, que nos fomos ajustando, momento a momento, a uma nova realidade.

Nas “COVID-19 Sessions”, vimos também o difícil papel dos pais numa fase como esta. O teletrabalho, as tarefas domésticas, as refeições, os horários, os cuidados de higienização e desinfeção, a telescola, as aulas online dos filhos e muito mais. E como pano de fundo uma situação de pandemia com um confinamento de impacto erosivo na nossa mente e corpo. É difícil estarmos a gerir tanta coisa dentro de casa quando lá fora existe uma ameaça invisível e um frenesim diferente do que alguma vez testemunhámos (quem não tem presentes as sirenes das ambulâncias e dos carros de polícia na sua mente por entre ruas e avenidas vazias?). A literatura aponta para potenciais situações de stress pós-traumático, aumento da ansiedade, conflitos familiares, problemas de sono, aumento a nível dos impulsos e até a própria noção de tempo fica alterada em contextos como este. Ninguém nos preparou para algo assim e, com maior ou menor dificuldade, o ajustamento continuou a acontecer.

III - Aprendizagens e recursos

Curiosamente ou talvez não, muitos de nós retirámos diversos aspetos positivos destes tempos. E isso não deve, de forma alguma, ser um gerador de culpa. Temos o direito de “sentir o que sentimos” e, simultaneamente, termos empatia pelos que estão em dificuldades e ajudá-los no que for possível. Estarmos mais plenamente com os nossos filhos, amigos e família, colaborarmos nas tarefas domésticas, reorganizarmos a nossa casa, aprendermos uma atividade nova ou voltarmos a um hobbie há muito parado por “falta de tempo” ou, apenas e só, ligarmos a um amigo com quem há muito não falamos. Convido-vos a anotar o que vos foi mais importante durante os tempos de confinamento e que querem manter para esta fase. É mesmo necessário que não voltemos ao piloto automático, por muito fácil e conhecido que isso seja.

IV - O que dizem as nossas emoções

Conforme vimos nas sessões, todas as emoções têm uma função no nosso ajustamento aos outros, ao mundo e a nós mesmos. Não há assim emoções negativas (por exemplo, a tristeza) ou positivas (como a alegria). Há, sim, emoções mais prazerosas que outras. Estamos muito habituados a fazer julgamentos sobre estes estados emocionais que nos preenchem: achamos que não é suposto sentirmo-nos de uma dada forma e “forçamos” um novo estado emocional. Este tipo de “supressão” emocional conduz a dificuldades como ansiedade, problemas no sono, dificuldades no controlo de impulsos, depressão, questões psicossomáticas ou burnout, entre outros. As organizações precisam, a meu ver, de alimentar culturas que permitam o processamento das emoções dos seus colaboradores. E os colaboradores ficam responsáveis por zelar pelo seu auto-cuidado (sem esquecer o dos seus colegas). A investigação tem sido clara ao evidenciar a utilidade de pausar na prevenção do burnout e no aumento da produtividade. Podemos e devemos aprender a fazê-lo no escritório e fora dele, não sendo preciso muito tempo para isso. Claro que, na maior parte das vezes, a atividade laboral não é compatível com a livre expressão emocional. O que defendo é que tenhamos momentos em que o possamos fazer. De forma plena, aceitante e libertadora.

Sentir não é sinal de fragilidade. É sinal de humanidade. E isso ficou bem patente nos webinars onde muitos colaboradores partilharam preocupações, emoções, dúvidas mas, também, esperanças, recursos, soluções e aprendizagens. Procurámos criar um ambiente acolhedor, seguro e próximo – mesmo em formato online. Vimos que a perceção de proximidade que todos temos pode fazer a diferença, independentemente de estarmos ligados de forma presencial ou à distância. Senti que essa mesma sensação foi conseguida e que as pessoas se sentiram próximas - ainda que distantes fisicamente. E esse aspeto deverá continuar a ser alimentado para o futuro: mais uma vez, a investigação aponta para a sensação de estarmos sós (por exemplo, sem feedback ou sem relações de proximidade no trabalho) como um potenciador de sofrimento psicológico no local de trabalho.

V – O regresso

É tempo de regressar, progressivamente e com os cuidados que todos conhecemos. Sabemos o quanto a liberdade (e a sensação de estarmos livres, de podermos escolher) é necessária para a saúde mental. E esse movimento de libertação “gradual e contida” é um esforço adicional que temos de fazer para o bem comum. Assim, partilho estratégias que possam ajudar do ponto de vista psicológico a fazer essa transição de uma forma mais saudável e integrada:

1.    Guardar momentos diários para pausas e procure que se tornem um hábito através da sua prática regular. Podem ser através da meditação, de um passeio, do foco na respiração, do anotar de um parágrafo diário sobre como se sentiram ou, simplesmente, do não fazer nada durante 10 minutos e deixar a mente fluir para o que precisar de pensar e sentir, sem julgamento. Faça companhia de qualidade a si mesmo e “ouça a linguagem do seu corpo”.

2.    Combinar responsabilidade diária com prazer e lazer diário. Esta pequena estratégia tem grande impacto na nossa saúde. O intercalar de ambos permite ao nosso cérebro reduzir níveis de atividade e, ao mesmo tempo, manter um nível adequado nos nossos neurotransmissores.

3.    Fazer pausas curtas e regulares num dia de trabalho. Este deve ficar nos momentos dele e não em todos. Sim, porque quando estamos a jantar com a família e a nossa mente está a “disparar” pensamentos e tarefas laborais, é como se estivéssemos no escritório e com o modo de trabalho ligado. E isso desgasta, reduz a qualidade do que fazemos e desliga-nos de nós mesmos. Do tal momento presente!

4.    Se há coisa que todos aprendemos (e estamos a aprender) é a definir limites. Tanto perante os nossos familiares como perante a atividade laboral. Procure, neste regresso, que a vida pessoal não fique fundida com a profissional. Cada uma tem a sua função e cada uma mexe consigo de forma diferente, psicológica e fisiologicamente.

5.    Manter horários de trabalho, de sono, de refeição, de lazer, de contacto consigo, de contacto com os outros. Vimos que a estrutura permite aumentar a sensação de controlo e segurança, tranquilizando-nos perante um cenário de mudança e dúvida. A nossa mente precisa de um certo nível de previsibilidade e sem comprometer a pertinência da novidade e do desafio nas nossas vidas.

6.    Definir recompensas, das mais pequenas às maiores. A crítica faz parte e é muito importante. Mas o elogio e o reforço positivo também. Se fez bem o seu trabalho, não parta do princípio de que fez apenas o que era suposto. Dê a si mesmo o que é seu por direito e mérito.

7.    Limitar o acesso à informação ligada à pandemia. Já o era importante e vai continuar a ser. De que nos serve higienizar o corpo se o não fizermos com a mente? Mantenha-se informado sobre o contexto atual e futuro através de fontes credíveis, em momentos e durações específicas do dia. Não deixe que o vírus esteja presente, direta ou indiretamente, em toda a sua vida. E, claro, restrinja também o acesso ao email e fontes de informação ligadas ao trabalho nas suas horas de lazer.

8.    Manter o contacto social. Quer esteja a trabalhar de casa, quer esteja no escritório. Precisamos de cultivar essa proximidade que contribui muito para o nosso bem-estar, mesmo com os cuidados necessários. Cultivarmos relações saudáveis e terminarmos relações tóxicas ajuda-nos e muito.

9.    Permitir-se errar, a perfeição não existe. Às vezes, devemos ser mais tolerantes connosco mesmos sem que isso queira dizer que “nos estamos a desleixar”. A exigência contribui para melhores desempenhos. Seja flexível ao ponto de a ajustar ao momento presente, às características da tarefa e aos seus recursos psicológicos e fisiológicos do momento. Cultive a aceitação.

10.  Limitar o consumo de psicofármacos. Terão sido gastos mais de 3 milhões de euros em medicamentos em março passado, com e sem receita, e outros produtos de acordo com dados apresentados pelo JN em maio passado. De acordo com a mesma fonte, as farmácias terão vendido mais de 42 mil de embalagens de indutores de sono com receita. Portugal tem estatísticas preocupantes a nível do sofrimento psicológico da população e um consumo excessivo desta categoria de fármacos. Muitas dificuldades do campo psicológico podem ser hoje resolvidos com ajuda da psicoterapia e sem os efeitos secundários que a psicofarmacologia promove. Em muitos casos, atenuar sintomas contribui para que as dificuldades se tornem mais profundas e permanentes. Por exemplo, se estamos a acordar demasiado cedo (insónia terminal) isso poderá querer dizer que estamos muito ansiosos. E se estamos ansiosos será porque precisamos de cuidar melhor de nós, de nos “nutrirmos” emocionalmente e de colocar limites à carga de responsabilidade que temos. Os sintomas psicológicos estão aqui para nos orientar rumo ao que precisamos (e ao que não precisamos).

11.  Aceitar aquilo que não podemos mudar. Liberte-se. Se há coisa que estes meses nos têm mostrado é que existe o essencial e o acessório. Há alturas em que já demos tudo por algo ou alguém. É tempo de prosseguir. E de regressar!

Luís Gonçalves, Psicólogo clínico e psicoterapeuta 

 

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"É mesmo necessário que não voltemos ao piloto automático, por muito fácil e conhecido que isso seja."

Luís Gonçalves, Psicólogo clínico e psicoterapeuta

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