COVID – as clivagens de que pouco se fala

O ano de 2020 ficará nos livros de História por muitos motivos (e nem todos serão necessariamente maus).

De repente, o mundo – todo o mundo e não apenas o “nosso retângulo à beira mar” – pôs travões a fundo e parou. Pura e simplesmente, parou. Não havia livro de instruções para nos guiar, nem simulações a que nos pudéssemos agarrar, nem cenarizações que nos ajudassem a navegar uma pandemia à escala global, nada! Se fosse um terramoto, ou outro evento catastrófico cuja ocorrência constasse “dos livros” e fosse tida como “possível”, alguns saberiam provavelmente o que fazer; mas, ironicamente (soube eu entretanto), uma pandemia não integrava sequer o menu dos eventos considerados como “catástrofe”, um conceito no qual um vírus como o causador da COVID-19 pelos vistos não cabia. E, também ironicamente, não constava sequer no survey de Davos (ao qual responderam, em janeiro, os mais respeitados e/ou influentes líderes mundiais), que elencou os 10 desafios mais prováveis do futuro, sem nunca referir um vírus que já andava pela Ásia.

Desde então, além das inúmeras mudanças que a vida de todos nós sofreu, passámos a viver um ambiente de clivagens, algo em que provavelmente pouco pensamos agora, mas que terá efeitos inesperados, de primeira, segunda e terceira ordem, que não cabem neste artigo, mas que podem ser devastadores se continuarmos sem lhes dar grande atenção.

Com efeito, imediatamente após a paragem súbita, a engrenagem retomou a marcha a velocidades bem diferentes. Se muitos – empresas e cidadãos – encerraram as portas ou se encerraram dentro de portas, sentindo que o relógio passou a mover-se em slow motion, já outros viram a sua vida a fazer fast forward a um ritmo em que os dias passaram a encaixar-se nas noites e em quase se perdeu a noção do tempo (num dos milhares de “memes COVID” que correram na Internet, lembro-me de um que me pareceu particularmente pertinente: “Until further notice the days of the week are called Thisday, Thatday, Otherday, Someday, Yesterday, Today & Nextday”).

Por outro lado, se houve setores que entraram em coma profundo (como o da aviação), ou que estiveram, ou ainda estão, nos “cuidados intensivos” (como o turismo, a restauração, o “Oil&Gas”) outros levaram um género de “injeção de esteroides” e, desde que a pandemia se instalou, crescem a um ritmo nunca antes imaginado, como o dos equipamentos informáticos (admite-se inclusive um período de shortage no fornecimento de computadores, com países a colocar encomendas de milhões de equipamentos), o do entretenimento digital, o do e-commerce, entre muitos outros ligados à “indústria do digital” (as receitas da Zoom no primeiro trimestre deste ano, por exemplo, mais do que duplicaram face ao trimestre homólogo do ano passado, esperando-se uma subida vertiginosa dos lucros da empresa em 2020).

E os exemplos de “clivagem” podiam continuar, quase ilimitadamente. Citando apenas alguns, eventualmente dos mais preocupantes: alunos com escola à distância e alunos de contextos desfavorecidos privados de acesso à educação; idosos para quem o vírus pode representar o fim da linha e jovens para os quais pode não passar de uma “gripezinha”; professores que migraram literalmente “de um dia para o outro” para ensino digital e reinventaram conteúdos formativos e professores sem capacidade de lidar com ferramentas digitais, que deixaram de ensinar; trabalhadores com experiências de teletrabalho muito positivas e geradoras de um maior work-life balance e outros com a saúde mental gravemente afetada pelas gigantescas dificuldades associadas à conciliação do teletrabalho com a gestão “das crianças em casa”; famílias que reforçaram laços em período de confinamento e famílias em que o confinamento agravou a violência doméstica pré-existente e colocou as vítimas de abuso num beco sem saída; profissionais que se tornaram os novos heróis (médicos, enfermeiros, forças de segurança) e antigos heróis que empalideceram quase ao ponto de desaparecer (como “as Gretas Thumbergs”); líderes de grandes países que procuraram estabelecer o equilíbrio possível entre a proteção da saúde dos seus cidadãos e a proteção da economia e líderes de países ainda maiores que optaram pela manutenção do “business as usual”, quase indiferentes aos impactos da pandemia sobre a saúde dos cidadãos. E por aí fora.

Enquanto Presidente do GRACE, uma das clivagens que mais me preocupa é a relativa ao posicionamento das empresas perante os temas da responsabilidade social e da sustentabilidade em geral. Neste tema, como em quase todos aqueles em que há que fazer escolhas difíceis, acredito que “é nas travagens bruscas que se vê a força do cavalo”. E, infelizmente, nesta brusca travagem que a atual pandemia forçou tantas e tantas empresas a fazer, ficou claro que, perante as dificuldades, muitas empresas claudicaram, focando-se novamente na quase exclusiva proteção do “valor acionista”, deixando a nu que a importância que afirmavam atribuir à sustentabilidade ambiental e social e à criação de valor para todos os stakeholders, poderá não passar, afinal, de uma certa forma de green/social washing.

Como afirmou recentemente Paul Polman (CEO da Unilever de 2010 a 2019, e hoje membro da Direção do Pacto Global das Nações Unidas), a atual crise pandémica, além de dizimar vidas, está a testar severamente as empresas, a verificar os limites da coesão social, a ameaçar rasgar “contratos sociais”. Neste “teste ácido” à responsabilidade de muitas organizações, a clivagem entre as (muitas) que passam no teste e as (infelizmente também muitas) que “chumbam”, é tão evidente quanto preocupante.

A boa notícia é que, nesta polarização, são apesar de tudo muitas as empresas que, às boas práticas que já desenvolviam em termos de responsabilidade ambiental (e que não abandonaram a pretexto da atual e angustiante crise!), somaram a demonstração de um forte sentido de responsabilidade social, correndo riscos, no interesse coletivo de todos – umas, mantendo a integralidade do salário a trabalhadores em lay-off, outras, facultando diversos tipos de apoio aos colaboradores confinados em teletrabalho (incluindo em termos de manutenção de saúde mental), outras ainda, disponibilizando meios digitais para que os filhos dos colaboradores possam continuar a estudar “à distância”, algumas, combatendo a inevitável sub-ocupação dos colaboradores mediante o reforço da sua formação (online) e o correlativo aumento de competências, e quase todas montando complexos (e dispendiosos) esquemas de progressivo regresso ao local de trabalho com preservação da saúde e segurança de todos, entre muitos outros exemplos que poderiam ser referidos.

Não obstante o caráter preocupante da clivagem a que todos começamos a assistir relativamente ao posicionamento das empresas perante os temas da sustentabilidade em geral (e apesar de poderem ser muitos “os ratos a abandonar o navio” por esse mundo fora), uma coisa parece ser certa – o facto de o tema “saúde” ter passado (inesperadamente) a ser central às preocupações da humanidade, dominando o contexto em que todos vivemos, acabará por conduzir a que a responsabilidade social (nomeadamente no que se refere à manutenção do emprego) se torne tão central à agenda de muitas empresas, quanto já o era a responsabilidade ambiental.

Será que, fruto da COVID-19, e pese embora as muitas clivagens que teremos de aprender a gerir, poderemos em breve afirmar com propriedade que “social is the new green”?

Se esta aspiração se concretizar, ela será, na minha perspetiva, uma das razões pelas quais nem todos os motivos que farão com que 2020 fique nos livros de História, sejam maus.

Sendo que o GRACE, a maior organização nacional que congrega as empresas que, como a PwC, permanecem genuinamente focadas em ser ambiental e socialmente responsáveis, aqui estará para ajudar os seus mais de 170 associados a escrever essa página da História!

Margarida Couto, Presidente do GRACE em representação da Vieira de Almeida & Associados

 

"Será que, fruto da COVID-19, e pese embora as muitas clivagens que teremos de aprender a gerir, poderemos em breve afirmar com propriedade que “social is the new green”?"

Margarida Couto, Presidente do GRACE em representação da Vieira de Almeida & Associados

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