Resiliência e agilidade com novas formas de trabalhar

A atual pandemia da COVID-19, com mais de 3,5 milhões de casos em todo mundo e 250 mil mortes reportadas, já causou enormes danos pessoais, económicos e sociais. Alterou as nossas vidas e exacerbou muitas das disrupções em andamento, revelando a inviabilidade de alguns modelos de negócio. 

Sendo principalmente um problema de saúde pública, esta pandemia apresenta enormes implicações para os negócios e para a política económica, fiscal e monetária. As ameaças à saúde e às empresas podem desaparecer em meses, ou podem persistir por vários anos. Esta situação atípica está, também, a acelerar algumas tendências já existentes, como a digitalização ou as desigualdades, e a fazer abrandar outras que, até muito recentemente, possuíam um tremendo impulso, como é o caso da globalização.

De acordo com os nossos estudos quinzenais COVID-19 CFO Pulse Survey, durante uma primeira fase, as empresas mobilizaram-se para dar respostas às preocupações imediatas, como a segurança dos colaboradores, a contenção de custos, a gestão da liquidez e o adiamento de investimentos. Com a entrada na fase de estabilização, que se prevê que possa ser longa, os gestores estão a aprender a gerir este “novo normal” e, mesmo à medida que as restrições continuam a ser lentamente levantadas, as consequências económicas globais ainda se mantêm. Para as empresas, pode ser difícil imaginar como será o “novo” mundo no futuro. O que é claro é que a incerteza permanecerá uma constante e que as empresas ganharão maior resiliência e agilidade à medida que implementam novas formas de interagir, entre equipas, clientes, fornecedores ou stakeholders em geral.

É cada vez mais evidente que o caminho para o futuro recairá sobre as empresas. São estas que, em última análise, terão de determinar quando e como fazer os seus trabalhadores regressarem aos locais de trabalho e como os manter seguros. Terão de desenvolver soluções inovadoras para garantir que esta segurança pode ser mantida, ao longo do período de crise e na fase de recuperação. À medida que gerem estes processos, os líderes empresariais serão confrontados com uma série de decisões com impacto, tanto no seu próprio futuro, como no bem-estar dos seus empregados, clientes e stakeholders e, também, na sociedade em geral.

Nos últimos meses temos vindo a falar com muitas das principais empresas em Portugal e, tal como na PwC, a principal prioridade é garantir a segurança dos seus colaboradores. Contudo, à medida que nos apercebíamos que esta crise iria durar mais do que algumas semanas, as preocupações e medidas passaram, também, a ser de mais longo prazo. Estes são também tempos onde se gera maior criatividade, soluções inovadoras e maior atenção às novas formas de vida e de organização das comunidades. No recente documento da PwC “Relançar Portugal”, elencamos várias recomendações para a retoma da atividade. Este estudo partiu da análise do que está a acontecer em vários países, onde estamos a colaborar com instituições e empresas, e visa ser um ponto de reflexão nos vários aspetos que afetam a prosperidade da sociedade.

Nada melhor do que uma crise para potenciar a inovação

Durante a fase de quarentena e isolamento, somos forçados a socializar e a trabalhar por meio da tecnologia. Estamos a consumir streaming, a comprar online e a conectar-nos a amigos e familiares. Seja teletrabalho, streaming ou comércio eletrónico, grande parte destas atividades fluem para os maiores players, que estão a obter um retorno à escala global. No primeiro trimestre de 2020, a Netflix aumentou em 16 milhões o número de novos assinantes, quase o dobro de 2019. Esta pandemia deverá, da mesma forma, acelerar a automação do trabalho por meio de inteligência artificial e robótica. 

Em matéria de inovação, Portugal está bem colocado e, de acordo com um estudo recente da OCDE, Portugal é o país com mais ideias ou soluções inovadoras apresentadas para combater a COVID-19, em áreas como a saúde e continuidade dos negócios pós-pandemia. De 148 projetos diferenciadores identificados em todo o mundo, Portugal é o país com mais soluções (17 projetos), 11% do total global. A OCDE dá destaque, por exemplo, ao site do Governo "Estamos ON".

Ainda do CFO Pulse Survey, a par das decisões de redução de custos e de adiamento de investimentos, os gestores estão, também, a avaliar os principais impactos das restantes alterações que implementaram como resposta e gestão desta crise. A maioria das empresas em Portugal tem, agora, uma melhor resiliência e agilidade a longo prazo e maior flexibilidade do trabalho. Algumas das medidas tomadas podem mesmo significar alterações efetivas na forma como as empresas entregam e servem os seus clientes (p.e. teletrabalho de forma definitiva). Na sequência do desafio lançado pelos governos europeus, a PwC desenhou uma App "CoronaManager", que resulta da nossa experiência acumulada com o propósito de contribuir para a contenção do surto de COVID-19.

Os líderes devem, assim, continuar a garantir que os investimentos em tecnologia se mantêm, que beneficiam as pessoas e a empresa, e que a resiliência agora alcançada se mantém no futuro. Esta pandemia veio, ainda, destacar uma crescente necessidade por novas competências, incluindo a empatia da liderança, resiliência e agilidade, maior colaboração e competências digitais, mas também competências técnicas como as de gestão de crise, ciberameaças e gestão (ainda) mais otimizada da cadeia de abastecimento.

Setores diferentes, impactos diferentes

Esta profunda recessão irá, certamente, causar dificuldades generalizadas. No entanto, as consequências e os impactos esperados serão diferentes em cada setor de atividade. De acordo com um trabalho recente que efetuámos para Portugal, o FMI estima que o PIB possa contrair 8%, em 2020, e a Oxford Economics, 5.8%. De acordo com os cenários considerados pelo Strategy Advisory da PwC, estimamos a uma variação potencial de -7.4% a -12.5%, para 2020. O setor com maior queda é o setor dos serviços. Destes, o alojamento, restauração e similares, os transportes e armazenagem e as atividades administrativas e dos serviços de apoio são os mais afetados. No entanto, estes eram também os que partiam de níveis superiores.

Transição para o “novo normal”

É cada vez mais evidente que não haverá uma solução global para a atual pandemia. Não conseguimos apenas “carregar num botão” e regressar à antiga realidade. Existe, portanto, uma constante necessidade de agir para fazer face aos desafios que teremos de enfrentar num futuro próximo. O mundo nunca tinha assistido a uma crise como a da COVID-19.

A necessidade de governos e organizações conhecerem as principais tendências globais e se prepararem para um “novo mundo” mais digital, mais global e com necessidade de mais competências já era uma realidade antes da chegada da COVID-19. Seria lamentável, e potencialmente devastador, se não conseguíssemos aproveitar a oportunidade à nossa frente.

As empresas líderes do futuro não serão, necessariamente, aquelas que há três meses, ou mesmo hoje, tinham maior experiência, recursos ou quota de mercado. Se não se souberem adaptar rapidamente aos novos desafios e capitalizar as novas oportunidades, podem vir a ser ultrapassadas por outras, simplesmente, pela sua maior capacidade de inovação, pela agilidade ou pelo reduzido tempo de resposta às adversidades. Os gestores têm de estar atentos e conhecer, em cada momento, as suas opções, sejam elas os incentivos e apoios do governo, ou as implicações e novidades fiscais disponíveis. Esperemos, portanto, que a confiança, o consumo e as trocas comerciais regressem em pleno para que a economia mundial possa voltar à sua normal atividade.

As boas notícias? Existe uma oportunidade para construirmos um futuro mais sustentável e resiliente, no qual todas as pessoas e empresas possam prosperar. Ao reconhecer os desafios que o mundo enfrenta, internalizar as lições desta pandemia e implementar as ferramentas e tecnologias disponíveis, podemos traçar um novo rumo, mais adaptável e escalável.

António Rodrigues, Strategy,  Markets & Clients Lead Partner da PwC em Portugal, Cabo Verde e Angola

 

"As empresas líderes do futuro não serão, necessariamente, aquelas que há três meses, ou mesmo hoje, tinham maior experiência, recursos ou quota de mercado."

António Rodrigues, Strategy, Markets & Clients Lead Partner da PwC em Portugal, Cabo Verde e Angola

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