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Maria Antónia Torres

Maria, antes de avançarmos e para melhor enquadrar a restante conversa, começo por perguntar qual o papel da temática da “Diversidade e Inclusão” (D&I) numa casa como a PwC? 

A vivência de uma cultura promotora de uma verdadeira “Diversidade e Inclusão” é hoje fulcral para o presente e para o futuro das organizações em geral. Quer por razões de negócio, quer por razões de sustentabilidade social, as organizações têm que caminhar, com urgência, no sentido de serem o espelho da diversidade que existe nas comunidades e nos países onde atuam. 

No nosso caso concreto, a “Diversidade e Inclusão” entronca diretamente no nosso Propósito - “construir confiança na sociedade e resolver problemas importantes” - e também nos nossos Valores, designadamente no “preocupamo-nos com os outros”, no “fazemos a diferença”, no “trabalhamos juntos”... Não faltam exemplos dos impactos que se sentem hoje em todo o mundo, decorrentes do facto de uma grande parte da população se sentir excluída, sentir que não tem sequer uma oportunidade. Nós podemos fazer a diferença neste ponto. Temos a obrigação de o fazer.

Por outro lado, em termos de negócio, a complexidade crescente e a consequente diminuição da nossa capacidade de antecipar o futuro (acho que o momento presente é um exemplo cabal disso) tornam absolutamente imprescindíveis, numa organização como a nossa, a diversidade de pensamento, de experiência, de conhecimento e de abordagem. Não existindo, estamos a limitar a nossa capacidade e qualidade de decisão, a capacidade de identificação de tendências, e também a diminuir a nossa capacidade de obtenção e retenção de talento.

 

O tema da Saúde Mental não é algo de novo, mas tem ganho maior atenção nos últimos tempos, fruto da notoriedade potenciada por alguns meios de comunicação, bem como consequência da pandemia da COVID-19, durante a qual muito se falou (e fala) da salvaguarda da saúde mental num período tão desafiante. No que respeita aos locais de trabalho, onde tantas e tantas Pessoas passam grande parte dos seus dias, como é que podemos ser inclusivos em termos de saúde mental? O que é que isso significa de forma mais prática?

Felizmente, a saúde mental tem tido nos últimos anos um tratamento mais adequado em termos de comunicação. Isso fez com que mais pessoas, hoje em dia, tenham mais informação sobre a doença, permitindo inclusivamente, e proativamente, identificar situações de doença em si próprio e nas pessoas que os rodeiam. Adicionalmente, muitas pessoas com visibilidade pública, em vários países, vieram publicamente dar a conhecer as suas experiências passadas e presentes em termos de doença mental - uma partilha que é muito impactante na luta contra a estigmatização da doença mental. No UK, por exemplo, o tema teve grande divulgação e exposição com a campanha “This is Me” na qual a PwC também participou. Agora, embora tudo isto sejam passos positivos, não podemos pensar que não continua a existir um enorme estigma e também medo, diria eu, em relação à doença mental. Eu penso que a maior “intangibilidade” da doença mental faz com que seja, por vezes, difícil assumir a abordagem correta, a qual teríamos se partíssemos uma perna ou tivéssemos um cancro. Há um sentimento de fracasso ou fraqueza associado à doença mental que não ocorre no caso das doenças mais “tangíveis”. Mas notem que a doença mental decorre muitas vezes de fenómenos físicos, associados a desgaste físico, desequilíbrios químicos (relacionados com hormonas ou vitaminas), etc. Mesmo quando são doenças que nascem connosco têm uma componente genética e, logo, eminentemente física. Diria que no local de trabalho, o papel mais fundamental das organizações é criar uma cultura de abertura e aceitação quanto ao tema. Garantir que as suas pessoas se sentem seguras para falar sobre a sua saúde mental.

 

É facto que a saúde mental abarca e combina diferentes aspetos da diversidade, sejam eles de caráter social ou até mesmo informacional. Onde é que o tema da “Diversidade e Inclusão” se encontra, de forma profunda, com a vergonha subtil que ainda existe em se falar e assumir problemas ao nível da saúde mental?

Eu sou uma profunda defensora da relevância de implementar e promover uma cultura de diversidade e inclusão, precisamente porque é o caminho para a solução de um conjunto de problemas também eles de natureza diversa. Quando vivemos verdadeiramente numa cultura de diversidade e inclusão, aprendemos a aceitar os outros nas suas diferenças. Aliás, aprendemos a vibrar com as diferenças dos outros. Quando essa cultura, essa forma de viver é absolutamente verdadeira, os outros são o que são, eles próprios com todas as suas matizes e detalhes, incluindo a doença, caso exista. E as limitações daí decorrentes, caso existam. Adicionalmente, o aprender a aceitar os outros exatamente como são, faz com que aprendamos a aceitar-nos a nós próprios também, como somos. É um ciclo virtuoso.

 

De acordo com a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, mais de um quinto dos portugueses sofre de uma perturbação psiquiátrica (22,9%), sendo que Portugal é o segundo país com a mais elevada prevalência de doenças psiquiátricas da Europa. O que é que isto deve significar para a sociedade em si e também para as empresas? De que forma as políticas de D&I podem ajudar a atenuar estes números e as consequências dos mesmos?

Eu não sei se é uma questão de atenuar números. Eu diria que, considerando o estigma que ainda existe, conforme referi, os números provavelmente estão ainda aquém da realidade.

Agora, há com certeza muito para fazer na sociedade em geral, mas também ao nível das empresas. Numa perspetiva geral, não me canso de repetir, informação, informação, informação! É essencial falar-se do tema e comunicar. 

Numa perspetiva mais concreta das empresas, acho que é preciso distinguir as doenças que acompanham a pessoa ao longo da sua vida e as doenças que surgem num determinado momento. No primeiro caso, são fundamentais políticas inclusivas de recrutamento, que sejam acompanhadas de uma verdadeira cultura de diversidade que permita que pessoas com caraterísticas e capacidades diferentes possam encontrar o seu lugar e o seu reconhecimento na empresa. É possível fazer mais neste ponto. São oportunidades que mudam a vida das pessoas.

No caso de doenças que surgem em determinado momento, são fundamentais, a título pró-ativo, políticas potenciadoras do bem-estar. As empresas podem ajudar e apoiar os seus colaboradores a conseguirem um estilo de vida mais equilibrado e saudável. Como sabemos, o stress e o burnout estão muitas vezes associados a hábitos de trabalho que podem ser mudados e ajustados. Mais uma vez, a informação é fundamental. Numa perspetiva mais reativa, a empresa deve ter políticas de saúde e mecanismos de apoio aos colaboradores, direcionados também para a doença mental.

 

Sabemos que, por vezes, a discriminação pode ser tão prejudicial para o bem-estar mental quanto o próprio problema de saúde. Se alguém se sente incapaz de conversar sobre a sua saúde mental no seu local de trabalho porque sente medo de ser tratado de maneira diferente, então existe de facto uma “barreira invisível” que apenas adensa o tema. De que forma se combate isto? Onde estamos a esta data, a este nível?

Conforme já referi, tem que se reconhecer que persiste ainda um grande estigma à volta da doença mental e também muita falta de informação. Tem existido uma evolução, mas que não é, ainda, de todo suficiente. Penso que a primeira fase de trabalho dentro de uma organização, relativamente a este tema, é necessariamente criar um ambiente de abertura, de segurança e de informação sobre o tema. Foi este processo que iniciámos na PwC através da celebração do dia da doença mental, da divulgação e do apoio a instituições que tratam da doença mental em diversas vertentes, através da realização de workshops/webinars, etc. Não queremos que seja um assunto “tabu”, mas sim um assunto relativamente ao qual as nossas pessoas sentem que podem falar. A este nível, estamos agora a desenvolver um ciclo de webinars com a Associação Encontrar+se, cujo objetivo passa por trazer este tema para dentro da PwC, sob diversas perspetivas e focando várias dimensões do mesmo; incentivando assim a que se converse sobre a Saúde Mental, se esclareçam todas as dúvidas e, passo a passo, se eliminem os preconceitos que ainda persistem.

É também objetivo fundamental que as nossas pessoas estejam cada vez mais bem informadas sobre este tema. Esta informação é relevante para todos pois, se estivermos alerta, saberemos como podemos ajudar os nossos colegas e as nossas equipas; impedindo o desenvolver de situações ainda mais graves e incapacitantes. Este é um caminho que vamos continuar a percorrer na PwC, pois acreditamos que é um tema estruturante, de responsabilidade partilhada, e com vasto impacto nas empresas e na Sociedade.

 

Entrevista a:

Maria Antónia Torres, Diversity & Inclusion Lead Partner da PwC em Portugal, Cabo Verde e Angola

 

"Há um sentimento de fracasso ou fraqueza associado à doença mental que não ocorre no caso das doenças mais «tangíveis». "

Maria Antónia Torres, Diversity & Inclusion Lead Partner da PwC em Portugal, Cabo Verde e Angola

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