As mudanças na educação: um novo ensino?

Qual foi a atitude adotada pelo IPAM quando o surto chegou a Portugal?

Antes de mais, é importante referir que nenhuma pessoa em contexto individual ou organizacional estava preparada para esta situação. Trata-se de um momento único no mundo em que vivemos e que obrigou a processos de adaptação e gestão rápida à mudança, planificação com elevado grau de incerteza e insuficiência de dados de suporte ao processo de tomada de decisão a vários níveis. No caso do IPAM a nossa opção passou por trabalhar em função dos dados científicos disponíveis e em articulação com os órgãos governamentais. No dia 12 de março, as determinações do Governo Português indicaram-nos a necessidade da transformação digital do processo de ensino/aprendizagem e no dia 16 de março pelas 08h00 iniciámos um registo de 100% de aulas online que ainda hoje perdura em função do atual contexto.

Que medidas obrigou esta pandemia o ensino a adotar? Foram alterações drásticas ou já estavam preparados?

O IPAM foi a primeira instituição de ensino superior privado em Portugal a adotar metodologias de ensino à distância. Iniciámos em 2011 este registo nas Licenciaturas e tínhamos em março de 2020, 10% dos nossos estudantes e 25% dos nossos docentes na versão elearning dos nossos programas. A nossa experiência de 10 anos nesta matéria permitiu-nos gerar importantes componentes de know-how acumulado, associado também com o desenvolvimento de competências organizacionais e individuais por parte do corpo docente. Partindo do pressuposto de que já tínhamos uma cultura associada a tipologias pedagógicas disruptivas e inovadoras tudo se tornou mais fácil. Fizemos um programa de formação intensivo com o nosso corpo docente em 48h, com foco na utilização de plataformas síncronas e de gestão do processo pedagógico com os nossos estudantes. Posteriormente, foram desenvolvidas ações de formação ao nível da produção de conteúdos assíncronos, metodologias pedagógicas ativas e interativas, processos de avaliação e ferramentas de supervisão, mentoring e tutoria à distância.

Que tipo de plataformas se mostraram úteis para o ensino nesta altura?

A utilização de plataformas pedagógicas de gestão académica e de interação com estudantes tem sido, em simultâneo, uma preocupação para o IPAM e para todas as instituições de ensino em geral. 

O “Blackboard” é a plataforma que utilizamos desde 2015, permitindo uma gestão integrada de todas as componentes de ensino/aprendizagem. Esta plataforma tem associada uma dimensão específica e direcionada para a componente síncrona (live), o “Blackboard Collaborate”, que permite a necessária complementaridade com a componente assíncrona do “Blackboard” (content). Este foi e é, precisamente, o principal recurso utilizado pelo IPAM e aquele que nos permitiu a completa transformação digital da componente letiva. São também utilizadas outras plataformas na nossa atividade diária, nomeadamente o “Zoom” para a realização de aulas específicas e webinares, bem como o “Teams” para trabalho à distância, reuniões de trabalho e funcionamento de órgãos colegiais.

Acha que esta paragem forçada levou o ensino a perceber que existiam falhas ou um atraso a nível tecnológico? Esta situação levou a uma mudança a este nível? 

As grandes mudanças e os processos de inovação de referência disruptiva, geralmente, aparecem como resposta a um conjunto evidente de necessidades cujas soluções do momento se constituem como insuficientes ou desadequadas. No ensino temos essencialmente três registos: 

  1. instituições que ministram cursos maioritariamente em regime elearning, com recursos tecnológicos e com competências. No caso destas instituições a transição foi mais fácil e a adaptação tecnológica esteve mais focada na capacidade das plataformas pelo aumento do número de utilizadores do que propriamente em outras questões; 
  2. instituições que já tinham algum registo ao nível do ensino à distância, com recursos tecnológicos básicos e competências também básicas. Neste âmbito, a transição implicou em muitos casos a alteração de plataformas ou o reforço de funcionalidades das plataformas já utilizadas do ponto de vista tecnológico; 
  3. instituições com foco exclusivo no ensino presencial e sem referências relevantes na utilização de tecnologia. A este nível a transformação teve de ser global e muitas instituições ainda não se conseguiram adaptar, tanto do ponto de vista da utilização de plataformas, como ao nível da experiência pedagógica. 

Em resumo, podemos afirmar que existem soluções tecnológicas adaptadas a todas as necessidades de ensino à distância, sendo que o sucesso da sua utilização depende da forma como as instituições as utilizam e do grau de maturidade dos seus utilizadores. Em termos globais, a transformação do ensino em dinâmicas de sinergia entre componentes assíncronas e síncronas será uma realidade, o que implicará uma evolução tecnológica ainda mais acelerada.

Podemos transformar esta ameaça numa oportunidade para o ensino? A que níveis?

O cenário COVID-19 constitui-se claramente como uma ameaça mundial para com a humanidade em termos da saúde mundial das várias populações; contudo, significa também interessantes oportunidades de mudança no setor da educação superior. Torna-se evidente a necessidade de reinventar um conceito que ainda reporta aos princípios que levaram à criação das primeiras universidades na Idade Média, baseado no acesso de estudantes de 18-24 anos ao conhecimento teórico, na socialização do ensino presencial e na obtenção de um título académico que daria acesso eterno a uma determinada profissão. O cenário atual e futuro assenta em pressupostos bem diferentes, nomeadamente na perspetiva do conhecimento aplicado e do desenvolvimento de competências, em formas alternativas, cómodas e intuitivas de aprendizagem associadas ao elearning, ao b-Learning e ao conceito lifelong learning com componentes modulares, progressivas e evolutivas. A realidade do cenário de transição pós-crise em alguns países indica-nos também que as pessoas irão estar focadas em formações mais intensas, mais técnicas e em formatos alternativos ao registo presencial puro.

Com o fim do Estado de Emergência regressaram ao ensino presencial, ainda que parcial, ou manterão o ensino à distância? E, na eventualidade de um novo pico de COVID-19 no final do ano, existe algum plano de contingência para o caso de virmos a passar por uma situação similar?

O IPAM segue as determinações do governo Português nesta matéria com cuidados especiais e redobrados para com a vida de estudantes, docentes e staff. Desta forma foi tomada a decisão de manter as aulas 100% online até ao final do ano letivo 2019-2020, bem como os processos de avaliação contínua, periódica e final. Estamos ainda a avaliar a eventualidade das épocas de recurso e especial poderem decorrer de forma presencial, contudo temos já definido um plano para a probabilidade de ocorrerem também à distância. As provas públicas de Estágio (licenciatura) e Dissertação / Projeto Profissional / Estágio Profissional (Mestrado) decorrerão igualmente à distância. 

Relativamente aos estágios curriculares, estes decorreram na sua maioria dentro do registo laboral adotado pelas empresas nas quais os estudantes estavam colocados, sendo que nos casos em que tal não foi possível foram encontradas soluções para cada estudante, através da sua integração nas modalidades de estágio residencial ou laboratorial.

Estamos a trabalhar num plano de regresso ao ensino presencial no início do ano letivo 2020-2021 e, em simultâneo, num plano de contingência similar ao que foi implementado em Março de 2020 com melhorias decorrentes do processo de aprendizagem que desenvolvemos até ao momento.

Pedro Mendes, Dean do IPAM Lisboa

 

"(...) existem soluções tecnológicas adaptadas a todas as necessidades de ensino à distância, sendo que o sucesso da sua utilização depende da forma como as instituições as utilizam e do grau de maturidade dos seus utilizadores."

Pedro Mendes, Dean do IPAM Lisboa

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