Portugal precisa de ter mais empresas e maiores

Start adding items to your reading lists:
or
Save this item to:
This item has been saved to your reading list.

Para Ricardo Reis, a recuperação da economia portuguesa nos últimos cinco anos deveu-se muito à coragem dos empresários e trabalhadores privados. Os próximos desafios das empresas são o crescimento e a produtividade, segundo Luís Marques Mendes.

“A recuperação da economia portuguesa nos últimos cinco anos deveu-se quase exclusivamente à coragem dos empresários e trabalhadores no sector privado português”, refere Ricardo Reis, professor na London School of Economics. “Com um Estado falido e atentar equilibrar as suas contas, um sistema bancário a passar por uma enorme e penosa reestruturação, e um mercado interno estagnado ou em contracção, os empresários conseguiram virar-se para o mercado externo e conseguiram tirar a economia da crise”, conclui.

Se este desafio foi vencido, Luís Marques Mendes, advogado e consultor na Abreu Advogados, coloca novos objectivos, os do crescimento e da produtividade. Como refere, “estamos a crescer cerca de 2% ao ano. Precisamos de crescer muito mais. Para isso precisamos, desde logo, de aumentar a produtividade. Ora, este é um desafio que também se coloca às empresas e aos empresários. Empresas bem geridas, bem organizadas e bem dirigidas favorecem o aumento da produtividade. Daí a importância de ter bons empresários e bons gestores. É um bom passo para ter boas empresas.”

Na análise de António Correia, sócio da PwC, a importância de ter bons empresários e boas empresas, numa economia como a portuguesa, está na diferença entre ter um país próspero ou não. Adianta que “as empresas e os empresários são criadores de riqueza nos países, de bem-estar nas populações, de ocupação e desenvolvimento do território”. A pergunta de um milhão de dólares é o que são “bons empresários, para que tudo o que referi seja uma realidade”?

José Manuel Fernandes, presidente da Frezite, não tem resposta simples, mas diz que Portugal precisa de ter mais empresas e maiores. Pensa, assim, que “a economia portuguesa, pela sua componente empresarial, ainda necessita de muito músculo e isso passa pela valorização dos seus principais ‘clusters’, como candeias que vão à frente no espaço da competitividade e da sustentabilidade”. 

Garante que as boas empresas não são nem serão nunca “obra do acaso, da sorte, antes de gente visionária, gente ambiciosa e ousada que assume riscos perante desafios que sabe descodificar e avançar para os projectos e concretizá-los”. Acrescentando que “as boas empresas fazem-se por bons empresários, bons gestores, com oportunos projectos, com uma boa estratégica e com recursos bem diagnosticados e calculados”.

O fundador da Frezite sublinha, ainda, que as políticas públicas deviam estar alinhadas, com o objectivo de criar “um ambiente gerador deste crescimento empresarial”. No seu entender, “o nosso recente crescimento tem também na sua origem uma forte procura internacional e não tanto como se chega a afirmar, uma componente, quase exclusiva, das políticas públicas nacionais”.

Melhores empresas têm gestão 

Para António Correia é possível encontrar características comuns nos bons empresários e nas boas empresas. “São os que pensam além do que é apenas o valor económico ou financeiro das empresas que gerem. Que pensam na vastíssima rede de partes interessadas que andam à volta das suas empresas. Nos colaboradores, nos clientes, nos fornecedores, nas localidades, nas comunidades em que estão inseridos”, diz o sócio da PwC.

Encontra ainda características como a disciplina nos custos e arrojo nos mercados e nas áreas mais relacionais, “estas mais escassas nas capacidades pessoais, porque menos treináveis”. Adianta, ainda, que “são os que fazem a vida de quem trabalha com eles melhor do que era antes, se não o fizerem, nunca deveriam estar na gestão nem ser empresários”.

Mas, como, analisa Ricardo Reis, “alguns dos estudos mais sistemáticos no campo não apontam para características pessoais que estejam sistematicamente ligadas ao sucesso empresarial”. Indicam sim que “para o sucesso dos projectos é preciso (I) uma capacidade de gestão no sentido de definir objectivos, medir performance, e recompensar todos os colaboradores em função dessa performance, (ii) a capacidade de a determinada altura dar o salto e ganhar dimensão o que exige profissionalização”.

“O bom empresário é o que tem visão estratégica, espírito de abertura e inovação, capacidade de motivação, sentido de liderança, competência para arriscar e empreender”, caracteriza Luís Marques Mendes. “As boas empresas reflectem, por norma, estas características. 

São, em regra, aquelas empresas que estão bem geridas e organizadas, que se abrem ao exterior, que apostam na inovação e na investigação, que privilegiam um bom ambiente de trabalho, que fazem do profissionalismo uma escola de vida”, assinala o comentador televisivo da SIC.

Para José Manuel Fernandes, “as boas empresas não são feitas por aventureiros (esses têm vida curta), nem por golpe palaciano em compadrio. São fruto de muito trabalho, dedicação com a inteligência emocional permanentemente à prova, e a sua sustentabilidade faz-se pelo exemplo na gestão e com o espírito de servir os outros bem alto”.

O valor humano na era digital

Bethy Larsen

People & Organisation Advisory Partner da PwC 

Falar da importância do valor humano na era da revolução digital pode parecer contraditório. Vários estudos revelam que existe uma corrida pelo talento digital. Mas como iremos interagir com as "máquinas que pensam"? O que irá acontecer com a força de trabalho actual?

A memória mais recente transporta-nos para a massificação dos computadores pessoais e para a adesão global aos dispositivos móveis, com acessos quase ilimitados a informação. E o que têm os seres humanos a ver com tudo isto? Tudo! Não haverá era digital sem a valorização do melhor que o ser humano tem como a capacidade de pensar, criar e estabelecer relações interpessoais.

O mais recente estudo da PwC," Workforce of the Future: the competing forces shaping 2030", que revela os resultados do estudo realizado a cerca de 10.000 pessoas em todo o mundo, indica que mais de um terço das pessoas está preocupado com a perda do seu emprego por causa da automação. Efectivamente, as profissões com tarefas mais rotineiras estão actualmente já a sofrer uma automação, e serão massivamente reclassificadas.

Em 1997, existiam menos de 700 mil robôs industriais em todo o mundo. Actualmente são 1,8 milhões e prevê-se 2,6 milhões até 2019. Os trabalhos mais fáceis de serem substituídos são, sobretudo, os da indústria transformadora. O número e valor percepcionados das profissões irão, necessariamente, sofrer alterações. 

Reinvenção das carreiras

No entanto, a era digital abre uma oportunidade para que os profissionais reinventem a sua carreira, adquiram novas competências e se especializem nas tarefas de qualidade, que se irão suportar nas competências onde os seres humanos são claramente competitivos face aos robôs.

A automação está a criar novas profissões e esta tendência tomar-se-á mais visível nos próximos 10 anos, como, por exemplo, profissões que apoiem a contínua performance das máquinas. O estudo da PwC indica que 74% dos inquiridos estão dispostos a aprender novas competências ou a receber formação para se conseguirem manter competitivos. Consideram da sua responsabilidade manter as suas competências actualizadas.

Os CEO estão, cada vez mais, em busca de competências interpessoais, como o pensamento inovador, a liderança e a inteligência emocional que não podem ser codificadas. Estas características são difíceis de encontrar e não existe actualmente nenhuma alternativa automática. Assim, na era digital, o valor humano será ainda mais valorizado. 

 

In Jornal de Negócios, 24 de maio de 2018

“São os que pensam além do que é apenas o valor económico ou financeiro das empresas que gerem. Que pensam na vastíssima rede de partes interessadas que andam à volta das suas empresas. Nos colaboradores, nos clientes, nos fornecedores, nas localidades, nas comunidades em que estão inseridos”

António Brochado Correia, Assurance Partner da PwC

Contacte-nos

Pedro Palha
Manager
Tel: +351 213 599 651
Email

Siga-nos