O papel da IA na transformação dos Recursos Humanos em Moçambique

HR for Business – O papel da IA na transformação dos recursos humanos em Moçambique
  • Março 09, 2026

Em Moçambique, a digitalização está a ganhar espaço, e a IA surge como uma oportunidade para aumentar a eficiência e competitividade das Organizações.

Queremos conhecer, por um lado, a visão das organizações sobre este tema e os impactos que se podem verificar e, por outro lado, qual o papel dos Recursos Humanos neste contexto de transformação cultural.


A 7.ª edição da "HR for Business", dedicada à Inteligência Artificial e Transformação Organizacional, a equipa de especialistas da PwC entrevista Tânia Silva Tajú, Human Capital Manager na PwC Moçambique.

Num contexto em que a maturidade digital das organizações moçambicanas ainda está em consolidação, nesta entrevista, Tânia Silva Tajú, Human Capital Manager na PwC Moçambique, destaca o papel dos Recursos Humanos na preparação das equipas para os desafios associados à integração da Inteligência Artificial.

1. Como avalia a forma como a Inteligência Artificial está a influenciar as dinâmicas de trabalho e as expectativas dos colaboradores na realidade moçambicana?

A Inteligência Artificial tornou-se um tema transversal no discurso público e empresarial em Moçambique, sobretudo nos centros urbanos como Maputo e em organizações com maior exposição internacional. Contudo, ainda se verifica uma discrepância significativa entre o discurso estratégico e a capacidade efetiva de implementação, particularmente em estruturas mais tradicionais e no setor público.

A discussão sobre IA surge num contexto em que muitas organizações ainda estão a consolidar a sua maturidade digital. É comum ouvir, em determinados ambientes, a expressão “estamos sem sistema”, o que ilustra que o desafio começa, muitas vezes, na estabilidade tecnológica básica. Assim, o debate sobre Inteligência Artificial não começa na tecnologia avançada, mas na consolidação de bases sólidas: literacia digital, formação contínua e uma cultura orientada para desempenho e responsabilidade. A IA pode funcionar como catalisador dessa evolução, mas exige preparação estrutural consistente.

Paralelamente, existem organizações, nomeadamente multinacionais e empresas com forte exposição internacional, onde a integração de ferramentas baseadas em IA já faz parte das diretrizes globais. Nestes contextos, incluindo a própria PwC enquanto membro de uma rede internacional, os padrões de contratação, avaliação de desempenho e formação têm vindo a evoluir de forma significativa. Competências digitais, capacidade analítica e adaptação a novas ferramentas passaram a constituir critérios centrais de progressão e valorização profissional, alterando gradualmente as dinâmicas de trabalho e as expectativas dos colaboradores.  

É também nestes ambientes que se observa maior abertura e adaptabilidade, particularmente entre profissionais mais jovens ou com maior exposição académica e internacional, o que demonstra o potencial existente no país quando o contexto organizacional favorece essa transformação.

Assim, na realidade moçambicana, a influência da IA manifesta-se menos pela substituição imediata de funções e mais pela redefinição de competências, pelo aumento de exigências de qualificação e por uma crescente expectativa de aprendizagem contínua.
 

2. Na sua opinião, qual poderá ser o papel da área de Recursos Humanos na preparação das empresas para integrar IA nos seus processos?

Os Recursos Humanos desempenham um papel basilar na preparação das organizações para integrar Inteligência Artificial, mas não podem fazê-lo isoladamente. O ponto de partida não é operacional, é estratégico: tem de existir uma definição clara de uma estratégia de IA ao nível da própria empresa, acompanhada de uma liderança ativamente comprometida, diretrizes estruturadas, princípios de ética e governança claramente definidos e um compromisso real com a transformação.

A partir dessa base estratégica, entram outros intervenientes fundamentais, como a comunicação interna, para garantir a coerência e alinhamento da mensagem, o desenho e roll out das iniciativas e o envolvimento ativo do middle management, que desempenha um papel decisivo na operacionalização da mudança e na tradução da estratégia em prática diária.

É neste contexto que a área de Recursos Humanos pode atuar de forma estruturante, começando por um diagnóstico rigoroso das lacunas de competências, articulado com o recrutamento de perfis digitais diferenciados e com programas de formação orientados para responder às necessidades futuras da organização. Todo o ciclo de entrada, desenvolvimento e progressão deve estar alinhado com esta visão, incluindo a revisão dos modelos de avaliação de desempenho, de forma a valorizar percursos de aprendizagem contínua que integrem competências técnicas e comportamentais, como adaptabilidade, pensamento crítico e capacidade de trabalhar com tecnologia de forma ética e responsável.

Quando estes diferentes atores atuam de forma coordenada, cria-se o terreno necessário para uma gestão eficaz da mudança cultural, preparando a organização para novas formas de trabalhar e posicionando a Inteligência Artificial não apenas como uma ferramenta tecnológica, mas como um fator determinante na consolidação de uma organização mais preparada e orientada ao desenvolvimento de talento.
 

3. Que benefícios acredita que a IA pode trazer para os processos de Recursos Humanos? Tem exemplos concretos de iniciativas que demonstrem esses benefícios na PwC?

A PwC encontra-se hoje bem posicionada no que respeita à integração de Inteligência Artificial nos processos de Recursos Humanos, o que nos permite ter uma visão abrangente sobre o que está a acontecer internamente e no mercado que nos rodeia. Ao longo dos últimos anos, foi evidente um alinhamento estratégico consistente com as novas tecnologias, acompanhado de um esforço estruturado de upskilling e adaptação organizacional.

Essa evolução traduziu-se numa transformação profunda da forma como fazemos RH. Passámos de processos essencialmente manuais, como a recolha física de CVs e triagens pouco estruturadas, para modelos suportados por ferramentas digitais que permitem análise mais rigorosa de perfis, comparação de competências, alinhamento objetivo com requisitos da vaga e maior consistência na comunicação com candidatos.

Ao nível da formação e desenvolvimento, a mudança foi igualmente significativa. Hoje é possível personalizar a oferta formativa com base na identificação estruturada de competências, necessidades e interesses individuais. Plataformas como o Growth Center e o SkyHive permitem-nos mapear capacidades, antecipar lacunas e recomendar percursos de aprendizagem mais alinhados com as prioridades estratégicas da firma.

Adicionalmente, a criação de dashboards e a utilização de ferramentas analíticas proporcionam maior visibilidade sobre padrões de talento, necessidades de alinhamento e tendências de desenvolvimento, apoiando decisões mais informadas e sustentadas por dados.

Neste sentido, os benefícios da IA nos processos de Recursos Humanos não se limitam a ganhos de eficiência; traduzem-se numa abordagem mais estruturada, personalizada e estratégica da gestão de talento.
 

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4. Que barreiras ou desafios considera mais significativos para a adoção da IA nas Organizações em Moçambique? E como podem os Recursos Humanos contribuir para os ultrapassar?

A adoção de Inteligência Artificial nas organizações moçambicanas enfrenta desafios estruturais relacionados com o nível de maturidade digital e a disponibilidade de talento qualificado. Muitas empresas ainda estão a consolidar infra-estruturas tecnológicas básicas e a desenvolver literacia digital interna, o que condiciona a implementação de soluções mais avançadas. Ao mesmo tempo, o mercado local tem escassez de perfis especializados em áreas digitais e analíticas, aumentando a pressão sobre recrutamento e requalificação. Em vários contextos, surge também resistência à mudança e receio quanto ao impacto da IA nas funções existentes. 

Existe igualmente uma discrepância entre a intenção estratégica de integrar IA e a sua execução efetiva. Nem sempre há prioridades claras, investimento consistente ou um enquadramento sólido de governança e ética. Quando a transformação compete com outras urgências operacionais, as iniciativas tendem a perder ritmo ou coerência.  

Neste cenário, a área de Recursos Humanos pode ser determinante ao estruturar planos de capacitação digital, reforçar estratégias de recrutamento e requalificação e promover uma cultura de aprendizagem contínua. Pode também ajudar a alinhar competências e desempenho com a estratégia da organização, apoiar a definição de princípios éticos e assegurar uma comunicação clara que reduza resistência e aumente confiança. Os RH ajudam a transformar desafios estruturais em oportunidades de desenvolvimento sustentável.
 

5. Que papel terão os líderes na promoção de uma cultura aberta à inovação tecnológica, nomeadamente no contexto da IA?

Os líderes terão um papel decisivo na promoção de uma cultura aberta à inovação tecnológica. A integração da Inteligência Artificial não é apenas uma decisão técnica, é uma escolha estratégica que exige compromisso visível e coerente. Num contexto como o moçambicano, onde ainda existe alguma distância entre intenção e execução, é a liderança que define o ritmo da transformação ao integrar a IA nas prioridades estratégicas, assegurando investimento e estabelecendo princípios claros de utilização responsável.

Mais do que discurso, a cultura constrói-se através do exemplo. Líderes que utilizam ativamente ferramentas tecnológicas, que incentivam experimentação responsável e que integram competências digitais nos critérios de avaliação e progressão enviam sinais claros à organização.

Por fim, cabe também aos líderes criar um ambiente de confiança. A adoção da IA pode gerar receios, sobretudo quando associada à substituição de funções. Ao garantir oportunidades de requalificação, crescimento e aprendizagem contínua, a liderança transforma a inovação numa oportunidade e não numa ameaça. É este alinhamento entre estratégia, comportamento e desenvolvimento de talento que permitirá que a IA seja integrada como parte natural da evolução da organização.

Tânia Silva Tajú

Tânia Silva Tajú

Human Capital Manager
PwC Moçambique

Tânia Silva Tajú é Human Capital Manager na PwC Moçambique, profissional com mais de 10 anos de experiência em gestão estratégica de pessoas, compliance laboral e transformação organizacional.
Actualmente exerce funções de Human Capital Manager na PwC Moçambique, com responsabilidade transversal pelas principais áreas de gestão de pessoas, assegurando suporte estratégico e operacional a cerca de 140 colaboradores, em alinhamento com as directrizes globais da organização.
Com enfoque em Learning & Development, assegura o levantamento de necessidades de formação, a estruturação e o acompanhamento do plano anual, garantindo o alinhamento com as prioridades estratégicas e os requisitos regulatórios. É igualmente responsável pela administração local de sistemas globais de RH, como Workday e Cornerston .
Participou no processo de transição territorial da PwC Moçambique, garantindo a harmonização de políticas e a governação de pessoas num contexto multinacional.
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Licenciada em Psicologia Industrial e Organizacional 
Mestre em Gestão Estratégica de Recursos Humanos
Tradutora ajuramentada (Inglês–Português)


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Gabriela Teixeira

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