Como a IA está a impulsionar o futuro tecnológico de Cabo Verde?

Como a IA está a impulsionar o futuro tecnológico de Cabo Verde?
  • Março 09, 2026

A Inteligência Artificial é um dos pilares da transformação digital global e pode desempenhar um papel relevante no desenvolvimento económico e na modernização das Organizações.

Em Cabo Verde, o Governo tem vindo a promover iniciativas para acelerar a digitalização e criar um ecossistema favorável à inovação. Pretendemos conhecer a visão estratégica sobre este tema, os impactos observados e esperados para as Organizações, bem como o papel dos Recursos Humanos neste processo.


Na 7.ª edição da "HR for Business", dedicada à Inteligência Artificial e Transformação Organizacional, a equipa de especialistas da PwC entrevista Pedro Lopes, Secretário de Estado da Economia Digital de Cabo Verde.

A aposta de Cabo Verde em Inteligência Artificial e em infraestruturas tecnológicas avançadas está a apoiar a transformação económica e a evolução para uma economia do conhecimento. Nesta entrevista Pedro Lopes evidencia a importância de desenvolver talento, promover inovação e criar condições que fortaleçam o ecossistema digital do país.

1. Qual é a importância da Inteligência Artificial na estratégia nacional de transformação digital e no desenvolvimento económico de Cabo Verde, e como vê o seu papel enquanto motor da inovação e do empreendedorismo digital?

  • Catalisador da Diversificação Económica (Alinhamento com PEDS II)
    A Inteligência Artificial (IA) constitui a alavanca central para a desmaterialização da economia cabo-verdiana. Ao integrar a IA nas cadeias de valor, permitimos a transição de um modelo intensivo em turismo para uma Economia do Conhecimento, capaz de exportar serviços digitais de alto valor acrescentado e reduzir a exposição a choques externos.
  • Posicionamento Geoestratégico (O Hub Tecnológico do Atlântico)
    Capitalizamos a nossa infraestrutura de ponta — nomeadamente o Parque Tecnológico (TechPark) e a conectividade de baixa latência do cabo EllaLink — para posicionar Cabo Verde não apenas como um ponto de passagem de dados, mas como um centro de processamento e armazenamento de dados para IA. O objetivo é atrair hyperscalers e empresas que necessitem de ambientes seguros e neutros para treinar modelos algorítmicos.
  • Evolução para uma Governação Cognitiva e Preditiva
    Mais do que a digitalização burocrática, a IA permite ao Estado (através de entidades como o NOSi) evoluir para uma administração proativa. A análise de dados em tempo real facilita a definição de políticas públicas baseadas em evidências (data-driven policy), otimiza a gestão de recursos escassos (energia e água) e garante um serviço ao cidadão personalizado, transparente e ágil.
  • Democratização da Inovação e Capacitação do Capital Humano
    A IA atua como um equalizador de oportunidades para o ecossistema de empreendedorismo nacional. Ao reduzir as barreiras técnicas de entrada (via ferramentas low-code assistidas por IA), capacitamos as startups locais para desenvolver soluções globais para desafios específicos dos Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS), como a gestão da economia azul e a agricultura em climas áridos.

2. Que iniciativas estratégicas, previstas na Estratégia da Economia Digital e nos programas de capacitação e aceleração do ecossistema empreendedor, estão a ser implementadas para promover a adoção da IA no setor privado e impulsionar a competitividade empresarial?

  • Infraestrutura de Computação e Dados (TechPark/ZEET)
    A operacionalização do Parque Tecnológico de Cabo Verde não visa apenas o alojamento imobiliário, mas sim a disponibilização de capacidade de computação de alto desempenho e armazenamento seguro (Data Centers Tier III). Esta infraestrutura é crucial para reduzir o custo de entrada (barriers to entry) para empresas que necessitam de processar grandes volumes de dados para treinar modelos de IA, sem terem de investir em hardware próprio proibitivo.
  • Fomento ao Ecossistema de Inovação (Cabo Verde Digital)
    Através de instrumentos como a Bolsa Cabo Verde Digital e o programa GoGlobal, o Governo financia diretamente o risco inicial de startups que desenvolvam soluções baseadas em IA. A estratégia foca-se na capacitação técnica avançada (upskilling) de jovens talentos em Machine Learning e Ciência de Dados, garantindo que o setor privado dispõe de capital humano qualificado para implementar estas tecnologias.
  • Quadro Fiscal e Regulatório Atrativo (Economia Digital)
    Para mitigar o risco financeiro inerente à adoção de tecnologias emergentes, o regime da Zona Económica Especial para Tecnologias (ZEET) e o Código de Benefícios Fiscais oferecem isenções significativas (IVA, Direitos Aduaneiros) na importação de hardware tecnológico e software específico. Isto incentiva a modernização do parque tecnológico das PME nacionais.
  • O Estado como Plataforma de Dados (Open Data & Interoperabilidade)
    A estratégia de Governação Eletrónica evolui para um modelo de Governo como Plataforma. Através da interoperabilidade garantida pelo NOSi, o Estado trabalha para disponibilizar conjuntos de dados públicos (anonimizados) via API. Estes dados são a matéria-prima essencial para que o setor privado possa desenvolver, treinar e afinar algoritmos de IA adaptados à realidade local (ex: dados meteorológicos para agritech ou dados de tráfego para mobilidade urbana).
  • Ambientes de Teste Regulatórios (Sandboxes)
    Em alinhamento com as recomendações da UIT, promove-se a criação de Regulatory Sandboxes. Estes ambientes permitem às empresas testar soluções inovadoras de IA em ambiente real, sob supervisão regulatória, mas sem o peso imediato de toda a carga burocrática, fomentando a experimentação segura antes do lançamento no mercado.
     

3. De que forma a IA poderá impactar os modelos de trabalho e a gestão de talento em Cabo Verde, sobretudo numa economia que procura atrair nómadas digitais, start-ups e profissionais altamente qualificados?

  • Da Automação à Inteligência Aumentada (Upskilling)
    A introdução da IA no mercado de trabalho cabo-verdiano não visa apenas a eficiência administrativa, mas sim a qualificação da força de trabalho. A estratégia foca-se no reskilling (requalificação) contínuo, permitindo que os profissionais locais passem de executores de tarefas rotineiras para gestores de ferramentas de IA, focando-se em atividades de alto valor acrescentado como a análise estratégica, a criatividade e a gestão complexa.
  • Mitigação da Emigração via Exportação de Serviços
    A IA e a conetividade robusta permitem alterar o paradigma da Fuga de Cérebros (Brain Drain). Através do teletrabalho global, o talento tecnológico nacional pode integrar equipas internacionais e exportar serviços digitais sem sair do arquipélago. Isto permite a retenção de massa crítica no país, gerando riqueza local com salários indexados aos mercados internacionais.
  • Simbiose no Ecossistema de Inovação (Remote Working Program)
    O programa de atração de Nómadas Digitais é gerido como um vetor estratégico de transferência de know-how. Ao atrair profissionais globais de IA e tecnologia para os espaços de coworking e para o TechPark, fomenta-se a polinização cruzada de conhecimentos com as startups locais, acelerando a maturação do ecossistema empreendedor nacional através de mentoria e parcerias informais.
  • Flexibilização e Novos Modelos de Governação Laboral
    A economia digital impulsionada pela IA, caracterizada pelo trabalho por projeto e pela Gig Economy, exige uma modernização do Código Laboral. O objetivo é criar um quadro jurídico flexível que proteja os direitos dos trabalhadores digitais (nacionais e estrangeiros), ao mesmo tempo que elimina a rigidez burocrática, tornando Cabo Verde competitivo na atração de startups que operam com equipas distribuídas e ágeis. 
     

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4. Que competências e perfis profissionais considera críticos para acompanhar esta evolução tecnológica? E como está o Governo a apoiar a formação, requalificação e a atração de talento para o país?

  • Perfis Multidisciplinares e de Governação
    Para além dos perfis técnicos óbvios (Engenheiros de Dados, Especialistas em Machine Learning e Cibersegurança), a estratégia nacional prioriza a formação de Arquitetos de Soluções na Nuvem (para suportar o Data Center/TechPark) e perfis híbridos de "Governação Digital". Estes últimos incluem juristas especializados em proteção de dados e eticistas de IA, essenciais para garantir uma implementação da tecnologia que respeite os direitos humanos e a legislação cabo-verdiana.
  • O NOSi Akademia, e a Academia Sintaxy, etc., como Centro de Excelência e Exportação
    O programa NOSi Akademia por exemplo, transcende a lógica de estagiários; atua como um mecanismo de reconversão profissional (Reskilling) de alto nível. Através de parcerias com gigantes tecnológicos globais, certificamos o talento nacional com padrões internacionais, o que prepara os jovens não só para o mercado interno, mas para integrar equipas globais remotas, valorizando o "selo de qualidade" do profissional cabo-verdiano.
  • Alinhamento Estratégico Academia-Indústria (Modelo Tripla Hélice)
    O Governo atua como facilitador na aproximação entre as Universidades e o setor privado. O objetivo é a atualização dinâmica dos currículos académicos para incluir módulos de IA aplicada e Ciência de Dados, garantindo que a oferta formativa da Uni-CV e de outras instituições responde em tempo real às necessidades da economia digital e evita o desajuste de competências (skills mismatch).
  • Democratização da Literacia Digital (WebLabs e Ensino Básico)
    A base da pirâmide de conhecimento é assegurada pela expansão da rede WebLabs nas escolas secundárias. A estratégia foca-se no ensino de STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática) e pensamento computacional desde cedo. O intuito é criar uma "cidadania digital" crítica, onde as futuras gerações não sejam apenas consumidores passivos de tecnologia, mas criadores ativos.
  • Mobilização da Diáspora Científica
    Reconhecendo a dimensão global de Cabo Verde, existe um esforço deliberado para atrair a "Diáspora Digital". Através de redes de colaboração e incentivos ao retorno (físico ou virtual), procuramos integrar especialistas cabo-verdianos que atuam em mercados avançados, para que estes atuem como mentores e aceleradores do ecossistema local de IA.

5. Na sua visão estratégica, como pode a IA contribuir para tornar as organizações cabo-verdianas mais competitivas e criar um ambiente inovador, atrativo para empreendedores e talento nacional e internacional?

  • De Back-Office a Centro de Excelência Regional
    A IA permite às empresas nacionais transcenderem a dimensão do mercado interno. Ao automatizar processos e incorporar inteligência preditiva, as organizações cabo-verdianas (nomeadamente nos setores financeiro e logístico) ganham a escala e a sofisticação necessárias para competir como prestadores de serviços digitais de referência para toda a região da CEDEAO, operando a partir de uma base estável e segura.
  • Hiper-Personalização do Turismo e Economia Azul 4.0
    Nos setores âncora, a IA é o diferencial competitivo. No Turismo, permite oferecer experiências hiper-personalizadas que aumentam a receita por visitante. Na Economia Azul, a utilização de IA para análise de dados oceanográficos e climáticos coloca Cabo Verde na vanguarda da gestão sustentável dos recursos marinhos, atraindo financiamento climático (Green/Blue Bonds) e projetos de investigação global.
  • Cabo Verde como Laboratório Vivo para os ODS
    Posicionamos o país como um ambiente de teste real para soluções de IA que abordam os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) em Pequenos Estados Insulares (gestão de água, energias renováveis). Esta estratégia atrai Investimento de Impacto e empreendedores sociais que procuram um território onde a inovação tecnológica se cruza diretamente com a resolução de problemas climáticos e sociais urgentes.
  • Vantagem Competitiva da Trusted AI (Confiança)
    Numa era de preocupação global com a ética e privacidade de dados, a robusta legislação de Proteção de Dados de Cabo Verde e a sua estabilidade democrática funcionam como um ativo económico. O país posiciona-se como um "Porto Seguro" (Data Haven) para empresas que necessitam de desenvolver IA ética e conforme às normas internacionais (como o RGPD europeu), diferenciando-se pela segurança jurídica.

Pedro Lopes

Pedro Lopes

Secretário de Estado da Economia Digital de
Cabo Verde

Pedro Lopes é Secretário de Estado da Economia Digital de Cabo Verde e tem desempenhado um papel central na transformação digital do país, liderando iniciativas de inovação, capacitação e promoção do ecossistema tecnológico. Integra o Global Future Council do Fórum Económico Mundial, é Líder da Fundação Obama e tem representado Cabo Verde em diferentes plataformas internacionais, destacando-se pela defesa da liderança jovem, da inclusão digital e do desenvolvimento de talento.
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Licenciatura em Relações Internacionais, Universidade de Coimbra 
Mestrado em Resolução de Conflitos, University of Bradford (Reino Unido)
Mandela Washington Fellow
Reconhecimentos internacionais: MIPAD Global 100 Under 40; 100 Future Leaders in Government (Apolitical)


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Gabriela Teixeira

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