Diversos estudos internacionais apontam para um impacto potencial muito significativo da IA na aceleração da transição sustentável. De acordo com o relatório da PwC e da Microsoft, How AI can enable a Sustainable Future, a aplicação de soluções de IA em setores como energia, transportes, agricultura e gestão da água poderá contribuir para um aumento do PIB global entre 3,1% e 4,4% até 2030, enquanto reduz as emissões globais de gases com efeito de estufa entre 1,5% e 4%. Estas reduções poderão representar até 2,4 gigatoneladas de CO₂ equivalente por ano, demonstrando que crescimento económico e sustentabilidade podem evoluir de forma complementar quando suportados por tecnologias digitais avançadas.
Neste artigo, a PwC analisa o papel da Inteligência Artificial na aceleração da Sustentabilidade, explorando as principais oportunidades de criação de valor para as organizações, os desafios associados à utilização responsável da tecnologia e o enquadramento regulatório que está a moldar a sua adoção.
A capacidade de analisar grandes volumes de dados e transformá-los em decisões acionáveis está a tornar a Inteligência Artificial uma das mais importantes ferramentas para a Sustentabilidade. Ao apoiar uma gestão mais eficiente dos recursos, a redução de emissões e uma melhor monitorização dos indicadores ESG, está a acelerar a transição para modelos de negócio mais sustentáveis e resilientes.
Na prática, a IA está a acelerar a Sustentabilidade nas seguintes frentes principais:
melhoria do processo de gestão de indicadores ESG;
aumento da eficiência operacional e otimização da gestão energética;
transformação das cadeias de abastecimento; e
proteção dos recursos naturais.
Estas aplicações permitem reduzir emissões, minimizar desperdícios e melhorar a tomada de decisão baseada em dados.
De acordo com o relatório How AI can enable a Sustainable Future, a PwC e a Microsoft estimam que a utilização destas tecnologias poderá contribuir para preservar cerca de 32 milhões de hectares de floresta até 2030, evitando emissões significativas de carbono e protegendo simultaneamente serviços ecossistémicos essenciais. Da mesma forma, soluções de IA já são utilizadas na monitorização da biodiversidade marinha e na deteção automática de incêndios florestais, aumentando a capacidade de resposta das autoridades e reduzindo os impactos ambientais de eventos extremos.
A IA não é ambientalmente neutra. Embora a IA possa contribuir para a redução de emissões e para a Sustentabilidade, a sua utilização implica consumos significativos de energia e recursos, exigindo uma abordagem responsável e equilibrada.
Os principais desafios associados à utilização sustentável da IA incluem:
O desenvolvimento e a utilização de modelos avançados exigem infraestruturas computacionais cada vez mais robustas, suportadas por centros de dados com elevados consumos de energia, água e materiais. O crescimento da IA Generativa (GenAI) tem vindo a aumentar significativamente a procura por capacidade computacional, colocando pressão adicional sobre sistemas energéticos já sujeitos aos desafios da eletrificação da economia.
Assim, a adoção sustentável da IA assenta em quatro dimensões fundamentais:
A sustentabilidade da IA tornou-se uma preocupação estratégica. As organizações devem avaliar o retorno ambiental das soluções implementadas, assegurando que os benefícios gerados em termos de redução de emissões ou eficiência operacional superam os impactos associados ao treino e utilização dos modelos.
A qualidade dos dados constitui igualmente um desafio crítico. Sem dados fiáveis, consistentes e governados de forma adequada, a IA pode produzir análises incorretas, enviesadas ou pouco relevantes para a tomada de decisão. A construção de uma base sólida de dados continua a ser um pré-requisito essencial para qualquer estratégia de Sustentabilidade suportada por IA.
A solução passa também pela associação de energias renováveis aos data centers e outras estruturas consumidoras intensivas de energia, garantindo a utilização de energias limpas. Esta é uma das áreas em que Portugal poderá diferenciar-se, pelas suas características naturais, pelo que se encontram já em desenvolvimento diversos projetos que associam estas duas tecnologias.
Acresce ainda a necessidade de supervisão humana. A experiência das empresas demonstra que os sistemas de Inteligência Artificial podem gerar erros, enviesamentos ou “alucinações”, tornando indispensável a validação por especialistas do negócio. O objetivo não é substituir pessoas, mas potenciar a sua capacidade de análise e decisão.
À medida que a IA assume um papel mais central nos processos empresariais, aumenta a necessidade de mecanismos robustos de governação.
Na União Europeia, o AI Act (Regulamento da Inteligência Artificial—Regulamento (UE) 2024/1689) introduz um enquadramento regulatório pioneiro baseado no risco, estabelecendo requisitos específicos para sistemas considerados de elevado impacto. O regulamento prevê obrigações relacionadas com qualidade dos dados, transparência, supervisão humana, gestão de risco e prestação de contas, procurando promover uma utilização responsável da tecnologia.
Em paralelo, o reforço das exigências de reporte de sustentabilidade através da Diretiva de Relato Corporativo de Sustentabilidade (CSRD) e das normas ESRS (European Sustainability Reporting Standards) está a aumentar a necessidade de dados fiáveis, auditáveis e rastreáveis. Neste contexto, a IA poderá desempenhar um papel relevante na automatização e melhoria dos processos de reporte, desde que acompanhada por mecanismos adequados de controlo e validação.
Esta realidade ganha uma nova dimensão à medida que a própria IA se torna um dos principais consumidores da informação corporativa. Como destaca a PwC no artigo When AI becomes the reader: a turning point for corporate reporting, investidores, reguladores e outras partes interessadas recorrem cada vez mais a sistemas de IA para analisar e interpretar divulgações corporativas, apoiando processos de decisão, avaliação de risco e comparação de desempenho entre organizações.
Neste contexto, a consistência terminológica, a rastreabilidade dos dados, a clareza das métricas e a coerência entre diferentes canais de comunicação tornam-se fatores críticos para assegurar uma interpretação correta da informação e reforçar a credibilidade dos relatórios de sustentabilidade.
Assim, a confiança passará a depender não apenas da capacidade tecnológica, mas também da maturidade das práticas de governação, ética e gestão dos dados. Num contexto em que a IA é simultaneamente ferramenta de reporte e consumidora da informação corporativa, as organizações deverão assegurar que os seus dados e divulgações são transparentes, auditáveis, consistentes e preparados para uma interpretação fiável, tanto por pessoas como por sistemas inteligentes.
A adoção bem-sucedida da Inteligência Artificial depende tanto das pessoas como da tecnologia. Para que a IA gere valor sustentável, as organizações precisam de investir na capacitação dos colaboradores e no desenvolvimento de novas competências.
A transformação impulsionada pela IA não se limita à tecnologia. O seu sucesso dependerá igualmente da capacidade das organizações desenvolverem novas competências junto dos seus colaboradores. Diversos estudos apontam para uma evolução gradual das funções profissionais, em que muitas atividades operacionais passarão a ser apoiadas por sistemas inteligentes, aumentando a importância da supervisão humana, do pensamento crítico, da criatividade e da capacidade de decisão.
Neste contexto, a formação, o reskilling e o upskilling assumem um papel central. As competências mais valorizadas incluem a interpretação crítica dos resultados produzidos pela IA, a tomada de decisão baseada em dados, a criatividade, a resolução de problemas complexos e a utilização responsável da tecnologia.
A adoção sustentável da IA não depende apenas de infraestruturas tecnológicas e qualidade dos dados, mas também da preparação das pessoas para utilizarem estas ferramentas de forma eficaz, ética e alinhada com os objetivos da organização.
A relação entre Inteligência Artificial e Sustentabilidade representa uma das mais importantes oportunidades de transformação das próximas décadas. Pela sua capacidade de analisar grandes volumes de informação, identificar padrões complexos e apoiar decisões em tempo real, a IA pode acelerar significativamente a resposta aos desafios climáticos, energéticos e sociais.
A sua aplicação já está a demonstrar benefícios concretos em áreas como a redução de emissões, a eficiência energética, a gestão ESG, a otimização das cadeias de abastecimento e a proteção dos recursos naturais.
Contudo, os benefícios não serão automáticos. A criação de valor sustentável exigirá um equilíbrio permanente entre inovação e responsabilidade, assegurando eficiência energética, governação adequada, qualidade dos dados, transparência e supervisão humana.
“A Inteligência Artificial pode tornar-se um dos maiores aceleradores da Sustentabilidade das próximas décadas. Mas o seu sucesso não será determinado apenas pela tecnologia: dependerá da forma como as organizações conciliam inovação, responsabilidade, governação e criação de valor sustentável.”
Cláudia Coelho,Sustainability and Climate Change Partner da PwC PortugalAs organizações que conseguirem integrar Sustentabilidade, Dados e Inteligência Artificial numa estratégia coerente estarão mais bem preparadas para responder às exigências regulatórias, aumentar a sua resiliência e criar vantagens competitivas duradouras.
A IA poderá efetivamente tornar-se um dos mais importantes aliados na construção de uma economia mais sustentável—desde que a sua utilização seja guiada pelos mesmos princípios de responsabilidade e criação de valor que procura promover.